{"id":71,"date":"2011-04-25T00:46:19","date_gmt":"2011-04-25T02:46:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.biociencia.org\/rpazza\/?p=71"},"modified":"2011-04-25T00:46:19","modified_gmt":"2011-04-25T02:46:19","slug":"politica-cientifica-e-o-estudo-da-biodiversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=71","title":{"rendered":"Pol\u00edtica cient\u00edfica e o estudo da biodiversidade"},"content":{"rendered":"<p>Seguindo a s\u00e9rie de repostagens (a \u00faltima, prometo), este texto foi ao ar no dia 03 de Junho de 2009, pois no dia\u00a001 de junho a revista\u00a0<a href=\"http:\/\/www.the-scientist.com\/2009\/06\/1\/32\/1\/\" target=\"_blank\">The Scientist<\/a> trouxe um artigo interessante, sobre o risco de extin\u00e7\u00e3o de um grupo de cientistas chamados de taxonomistas.<\/p>\n<p><!--more-->Estes cientistas costumam estudar a biodiversidade em v\u00e1rios n\u00edveis, especialmente em n\u00edvel morfol\u00f3gico, classificando os organismos vivos e identificando novas esp\u00e9cies. A despeito da grande import\u00e2ncia destes profissionais para o conhecimento da biodiversidade, especialmente em um pa\u00eds como o Brasil, o n\u00famero de cientistas que realizam trabalhos de campo, cataloga\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o de novas esp\u00e9cies \u00e9 pequeno perto de outras especialidades da ci\u00eancia. Quais seriam os fatores que contribuem para este decl\u00ednio?<\/p>\n<p>Uma das \u00e1reas crescentes e que muitas vezes concorrem com os taxonomistas \u00e9 a da biologia molecular. An\u00e1lises de sequencias de DNA fornecem centenas ou milhares de caracteres (a morfologia \u00e0s vezes n\u00e3o consegue uma centena de bons caracteres para an\u00e1lise) para que poderosos e complexos softwares e algoritmos de an\u00e1lise gerem \u00e1rvores filogen\u00e9ticas e determinem a dist\u00e2ncia gen\u00e9tica entre diferentes esp\u00e9cies. Em muitos casos estes estudos determinam n\u00e3o s\u00f3 a posi\u00e7\u00e3o de um determinado grupo na \u00e1rvore da vida, mas tamb\u00e9m identificam novas esp\u00e9cies. Este poder de resolu\u00e7\u00e3o, aliado ao fasc\u00ednio da modernidade de trabalhar com DNA faz com que mais estudantes sejam seduzidos pelas micropipetas e termocicladores e menos pelo trabalho de campo e pelas velhas (ou novas) lupas. As promessas da biologia molecular s\u00e3o muito mais atraentes.<\/p>\n<p>Esta atratividade n\u00e3o \u00e9 algo apenas para os novos estudantes que est\u00e3o ingressando ou escolhendo sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 um fator importante na destina\u00e7\u00e3o de recursos. Visando chamar a aten\u00e7\u00e3o, a National Science Foundation dos EUA destinou este ano 2,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares para estudos taxon\u00f4micos e forma\u00e7\u00e3o de cientistas nesta \u00e1rea. Mesmo alcan\u00e7ando 0,04% do or\u00e7amento da NSF, este valor \u00e9 muito superior ao investido no Brasil na mesma \u00e1rea. Sequer existem editais espec\u00edficos para esta \u00e1rea em \u00f3rg\u00e3os de fomento.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o bastassem os atrativos, existem outros problemas que deixam a taxonomia e outros estudos de nossa biodiversidade com problemas cada vez maiores. Revistas cient\u00edficas internacionais com maior fator de impacto costumam rejeitar artigos sobre nossa biodiversidade, muitas vezes por que preferem artigos com abrang\u00eancia mais ampla, ou seja, que v\u00e1 ser lido (e citado, obviamente) por mais pesquisadores. Ou seja, os \u201cgringos\u201d se interessam pela nossa fauna e flora quando eles pr\u00f3prios v\u00eam fazer as coletas. Se n\u00f3s pesquisamos nossa biodiversidade e estamos apresentando os resultados, n\u00e3o interessa. Isso significa que as pesquisas de biodiversidade s\u00e3o de interesse maior para nosso pr\u00f3prio p\u00fablico e por isso muitas vezes s\u00e3o publicadas em revistas nacionais, seja em l\u00edngua estrangeira, seja em portugu\u00eas. Algumas revistas brasileiras t\u00eam tradi\u00e7\u00e3o internacional neste tipo de publica\u00e7\u00e3o, como a Zoologia (antiga Revista Brasileira de Zoologia), Pap\u00e9is Avulsos de Zoologia, Revista Brasileira de Bot\u00e2nica, entre outras.<\/p>\n<p>Seria ent\u00e3o, esperado, que os \u00f3rg\u00e3os de fomento nacionais dessem maior import\u00e2ncia a estas publica\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 mesmo? H\u00e1 alguns anos a CAPES apresenta uma metodologia de avalia\u00e7\u00e3o das revistas cient\u00edficas em um sistema chamado QUALIS. Trata-se de um sistema que leva em conta o fator de impacto da revista, medido a partir das revistas indexadas no Journal Citation Report (JCR), um indexador internacional pago. Atrav\u00e9s deste sistema, a maior parte das revistas nacionais teve, na \u00faltima avalia\u00e7\u00e3o do QUALIS, \u00edndices muito baixos para sua grande import\u00e2ncia e contribui\u00e7\u00e3o efetiva para a ci\u00eancia nacional. Face aos problemas do QUALIS, entidades como a Sociedade Brasileira de Zoologia, entre outras, assinaram um documento que solicita uma revis\u00e3o nestas regras, para n\u00e3o afundar de vez a ci\u00eancia b\u00e1sica nacional. Este documento pode ser lido na \u00edntegra\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sbzoologia.com.br\/sistema\/imgs_fckeditorCarta_Qualis-CAPES_mai2009.pdf\" target=\"_blank\">neste endere\u00e7o<\/a>. A continuidade de um sistema classificat\u00f3rio como este inviabiliza a continuidade de revistas tradicionais em diversas \u00e1reas do conhecimento e podem comprometer a publica\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 a\u00ed, tudo bem. A CAPES \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o que, embora tenha muito aux\u00edlio de pesquisadores, n\u00e3o \u00e9 composto por estes. Mas e quanto aos Comit\u00eas de \u00c1rea do CNPq? H\u00e1 poucos dias os comit\u00eas apresentaram as novas normas para a concess\u00e3o das bolsas de produtividade em pesquisa, fornecidas a pesquisadores que preenchem os requisitos e que, em geral, tratam-se de profissionais com bom \u00edndices de publica\u00e7\u00f5es por ano e est\u00e3o envolvidos na forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos orientando em programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. O objetivo da reformula\u00e7\u00e3o nestas regras \u00e9 ter crit\u00e9rios mais claros e justos para a designa\u00e7\u00e3o destas bolsas. Cada comit\u00ea pode adicionar crit\u00e9rios espec\u00edficos para sua \u00e1rea, que reflitam as caracter\u00edsticas individuais de cada \u00e1rea. Por exemplo, na \u00e1rea de Zoologia, para ter a primeira bolsa, que inicia em n\u00edvel 2, o pesquisador precisa nos \u00faltimos cinco anos ter publicado pelo menos 5 (cinco) trabalhos em peri\u00f3dicos cient\u00edficos qualificados nos \u00faltimos e ter conclu\u00eddo a orienta\u00e7\u00e3o de pelo menos 1 (um) Mestre, al\u00e9m de estar envolvido em orienta\u00e7\u00e3o de mestrandos ou doutorandos. Por sua vez, o comit\u00ea de Gen\u00e9tica, al\u00e9m de j\u00e1 ter conclu\u00eddo a orienta\u00e7\u00e3o de um mestre e estar orientando mestrandos ou doutorandos, exige que o pesquisador tenha publicado pelo menos 5 (cinco) trabalhos em peri\u00f3dicos cient\u00edficos de prefer\u00eancia como autor principal ou correspondente (primeiro ou \u00faltimo autor) e com fator de impacto igual ou superior a 1,63. Esta \u00faltima exig\u00eancia \u00e9 engra\u00e7ada, quando observamos qual \u00e9 o fator de impacto da revista brasileira da \u00e1rea \u2013 Genetics and Molecular Biology: 0,485. Ou seja, se eu quiser ser bolsista produtividade em pesquisa da \u00e1rea de Gen\u00e9tica, n\u00e3o posso publicar na revista nacional! Isso significa que os pr\u00f3prios pesquisadores da \u00e1rea, pois os comit\u00eas s\u00e3o formados por pesquisadores, est\u00e3o boicotando a revista nacional, que publica artigos cient\u00edficos desde 1978. Como se n\u00e3o bastasse o sistema QUALIS colocar a revista em uma p\u00e9ssima classifica\u00e7\u00e3o, os pesquisadores tamb\u00e9m est\u00e3o desestimulando a publica\u00e7\u00e3o de qualidade na revista. Ora, se eu tenho um bom artigo que pode ser publicado em uma revista com fator de impacto maior que 1,6, porque vou publicar na Genetics and Molecular Biology, o que poderia contribuir para aumentar seu fator de impacto, se a c\u00fapula da \u00e1rea no CNPq n\u00e3o d\u00e1 valor para esta publica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Enfim, de que adianta alardear tanto que subimos para 13\u00ba no ranking de publica\u00e7\u00f5es, aumentando (exageradamente) mais de 50% nas publica\u00e7\u00f5es (para ter mais detalhes sobre estes n\u00fameros e seu exato significado, ver outras discuss\u00f5es\u00a0no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/Detalhe.jsp?id=63368\" target=\"_blank\">Jornal da Ci\u00eancia E-mail<\/a> e\u00a0no<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=538FDS002\" target=\"_blank\">Observat\u00f3rio da Imprensa<\/a>), quando n\u00e3o se d\u00e1 valor para as revistas nacionais, que engrossaram o caldo deste impressionante aumento no n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es indexadas internacionalmente?<\/p>\n<p>Enfim, o conjunto da obra faz com que tenhamos pouco incentivo tanto para pesquisadores de \u00e1reas b\u00e1sicas como para a forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos nestas \u00e1reas. Quando vemos, por exemplo, alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o vendendo camisetas para custear seu trabalho de campo, precisamos refletir quais os caminhos que devem ser tomados. Algumas estimativas sugerem, com propriedade, que o aumento do n\u00famero de esp\u00e9cies novas descritas no Brasil seguem o aumento do n\u00famero de grupos de pesquisa na \u00e1rea. Por si, esta informa\u00e7\u00e3o poderia significar que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 boa, mas isso s\u00f3 esconde o problema da falta de verba para a pesquisa b\u00e1sica e a situa\u00e7\u00e3o complicada de programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em consolida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estudo da biodiversidade em seus v\u00e1rios n\u00edveis \u00e9 o primeiro passo para termos programas de manejo visando sua conserva\u00e7\u00e3o e para estabelecer o t\u00e3o comentado desenvolvimento sustent\u00e1vel, al\u00e9m de ser o melhor mecanismo para a bioprospec\u00e7\u00e3o de produtos naturais que poder\u00e3o ser utilizados na alimenta\u00e7\u00e3o e sa\u00fade humana. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio apoio \u00e0 pesquisa de base. \u00c9 necess\u00e1rio o fortalecimento das revistas cient\u00edficas nacionais e dos grupos de pesquisa emergentes e em consolida\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso fazer com que a sociedade, os pol\u00edticos e os pesquisadores que comp\u00f5em os comit\u00eas assessores dos \u00f3rg\u00e3os governamentais percebam que o estudo da biodiversidade pode ser t\u00e3o importante quanto o estudo das c\u00e9lulas tronco, da nanotecnologia ou dos biocombust\u00edveis em um pa\u00eds megadiverso como o nosso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguindo a s\u00e9rie de repostagens (a \u00faltima, prometo), este texto foi ao ar no dia 03 de Junho de 2009, pois no dia\u00a001 de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[5],"tags":[13,14,65],"class_list":["post-71","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia","tag-biodiversidade","tag-biologia-molecular","tag-taxonomia"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/71","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=71"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/71\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=71"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=71"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=71"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}