{"id":320,"date":"2013-03-19T16:46:49","date_gmt":"2013-03-19T19:46:49","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=320"},"modified":"2013-03-20T01:55:58","modified_gmt":"2013-03-20T04:55:58","slug":"mais-um-pouco-sobre-o-encontro-internacional-de-astyanax","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=320","title":{"rendered":"Mais um pouco sobre o encontro internacional de Astyanax"},"content":{"rendered":"<p>Continuando a s\u00e9rie sobre os <i>Astyanax<\/i> iniciada semanas atr\u00e1s. J\u00e1 comentei quem s\u00e3o eles e um pouco da problem\u00e1tica. Mas o que os faz t\u00e3o interessantes a ponto de haver um evento internacional acontecendo neste momento no M\u00e9xico? E o que estou fazendo aqui?<!--more--><\/p>\n<p>O M\u00e9xico \u00e9 cheio de cavernas. Em muitas delas existem peixes. E em v\u00e1rias delas existem peixes do g\u00eanero<i> Astyanax<\/i>. Algumas popula\u00e7\u00f5es destes peixes s\u00e3o completamente desprovidos de pigmenta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apresentam olhos. A explica\u00e7\u00e3o mais simples \u00e9 que peixes de superf\u00edcie colonizaram as cavernas e aos poucos perderam pigmenta\u00e7\u00e3o e perderam seus olhos. Isso n\u00e3o acontece porque n\u00e3o s\u00e3o \u00fateis no escuro (uso e desuso) como diriam alguns, mas sim porque muta\u00e7\u00f5es que afetam o desenvolvimento dos olhos ou a pigmenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o selecionadas negativamente. Ou seja, indiv\u00edduos cegos, dentro de uma caverna, se analisarmos estritamente o poder visual s\u00e3o t\u00e3o \u00e1geis ou capazes quanto os que enxergam. Entretanto, al\u00e9m deste diferencial existem outros que tornaram os peixes cegos mais aptos a este ambiente, como maior sensibilidade olfativa, por exemplo.<\/p>\n<p>Mas o que dizer sobre a origem destes peixes dentro das cavernas? H\u00e1 v\u00e1rias cavernas, em cada uma delas houve regress\u00e3o de olhos e constitui\u00e7\u00e3o de demais caracter\u00edsticas troglom\u00f3rficas? Ou ser\u00e1 que estes acontecimentos surgiram uma vez e depois foram dispersas nas v\u00e1rias cavernas?<\/p>\n<p>Lu\u00eds Espinasa \u00e9 um pesquisador que cresceu pr\u00f3ximo \u00e0s cavernas mexicanas e me parece ser o respons\u00e1vel por descobrir peixes em pelo menos uma delas, a caverna Guerrero (ir\u00edamos visitar esta caverna ap\u00f3s o evento mas por alguns problemas incluindo a viol\u00eancia no M\u00e9xico optaram por ficarmos na regi\u00e3o de Ciudad Valles). Ele apresentou no evento quest\u00f5es interessantes sobre a origem dos peixes de caverna e como o paradigma acerca disso tem mudado ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Nos anos 70, estudos utilizando marcadores chamados isoenzimas (um dia escrevo algo sobre os marcadores moleculares) pesquisadores encontraram alelos compartilhados por tr\u00eas popula\u00e7\u00f5es de caverna e que n\u00e3o eram observados em popula\u00e7\u00f5es de superf\u00edcie. Isto evidencia uma origem comum para os peixes de caverna em geral. Este paradigma permaneceu e fortaleceu com estudos posteriores utilizando outros marcadores moleculares nucleares como o RAPD (Polimorfismo de DNA baseado em amplifica\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias).<\/p>\n<p>Por outro lado, estudos utilizando sequencias de genes mitocondriais evidenciaram haver duas rotas colonizat\u00f3rias para cavernas espec\u00edficas a partir de invas\u00e3o da superf\u00edcie. Uma seria mais antiga e teria colonizado tr\u00eas cavernas e a outra, mais recente, colonizado pelo menos outras tr\u00eas. Ou seja, haveriam duas linhagens. Ao que parece, as popula\u00e7\u00f5es de superf\u00edcie encontradas atualmente s\u00e3o mais pr\u00f3ximas daquelas de caverna que teriam sido colonizadas posteriormente. Isto significa que os antigos habitantes da superf\u00edcie devem ter sido deslocados, substitu\u00eddos pelos que chegaram depois. Isto n\u00e3o \u00e9 de se espantar, pois uma das caracter\u00edsticas de esp\u00e9cies invasoras \u00e9 que se conseguirem se manter no ambiente, provavelmente v\u00e3o aumentar sua popula\u00e7\u00e3o e suplantar esp\u00e9cies competidoras que estiverem no local. Segundo os pesquisadores, os peixes desta linhagem nova s\u00e3o mais agressivos que os supostamente da linhagem antiga.<\/p>\n<p>Achei estas informa\u00e7\u00f5es bastante interessantes, pois v\u00e3o de encontro com meu trabalho de mestrado. No mestrado estudei uma outra esp\u00e9cie, <i>Hoplias malabaricus<\/i> (Erythrinidae), que muitos conhecem como tra\u00edras. Realizei estudos em citogen\u00e9tica de tra\u00edras coletadas na plan\u00edcie de inunda\u00e7\u00e3o do rio Paran\u00e1, uma regi\u00e3o logo acima de onde seriam as Sete Quedas, que foram submersas com a constru\u00e7\u00e3o da barragem de Itaipu. Sete Quedas separava duas prov\u00edncias ictiofaun\u00edsticas, a do Alto Paran\u00e1 e a do Baixo Paran\u00e1 (ou Paraguai). Pesquisas lideradas por quem foi posteriormente meu orientador de doutorado, o prof. Luiz Bertollo, tinham demonstrado que havia tra\u00edras com dois tipos de constitui\u00e7\u00e3o cromoss\u00f4mica no Alto Paran\u00e1. Uma delas ambos machos e f\u00eameas tinham 42 cromossomos. E a outra, o macho tinha 39 cromossomos e a f\u00eamea 40. Sei que \u00e9 dif\u00edcil conceber isso, principalmente para aqueles que acreditam que sempre temos f\u00eameas com cromossomos XX e machos com cromossomos XY. Pois bem, lhes apresento o que chamamos de Sistema Cromoss\u00f4mico Sexual M\u00faltiplo. A f\u00eamea \u00e9 X<sub>1<\/sub>X<sub>1<\/sub>X<sub>2<\/sub>X<sub>2<\/sub> e o macho \u00e9 X<sub>1<\/sub>X<sub>2<\/sub>Y. Posso entrar nestes detalhes posteriormente, at\u00e9 porque, saber que h\u00e1 diferen\u00e7as j\u00e1 \u00e9 suficiente para entender onde quero chegar. No baixo Paran\u00e1, por outro lado, havia sido documentada a ocorr\u00eancia de uma outra forma cromoss\u00f4mica (que na realidade chamamos de cit\u00f3tipo), a de 40 cromossomos tanto para machos quanto para f\u00eameas. Pois bem, j\u00e1 havia sido relatada a ocorr\u00eancia de invas\u00e3o de v\u00e1rias esp\u00e9cies que estavam na regi\u00e3o do baixo Paran\u00e1 e come\u00e7aram a habitar a regi\u00e3o do alto Paran\u00e1 ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o de Itaipu, pois esta deslocou o ponto de separa\u00e7\u00e3o em mais de 150km abaixo das Sete Quedas, misturando muita coisa. Em meu mestrado, encontrei na regi\u00e3o do Alto Paran\u00e1, os tr\u00eas tipos que estou comentando aqui, ou seja, tanto as formas originariamente pertencentes ao alto Paran\u00e1 quanto a forma pertencente ao baixo Paran\u00e1. O problema \u00e9 que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel distinguir morfologicamente (parece que alguns pesquisadores j\u00e1 est\u00e3o conseguindo isso agora, mas na \u00e9poca n\u00e3o era poss\u00edvel) entre cada um dos cit\u00f3tipos. ou seja, quando se pega uma tra\u00edra, n\u00e3o sabemos que tipo de tra\u00edra \u00e9. A implica\u00e7\u00e3o disso vir\u00e1 neste blog um dia.<\/p>\n<p>Pesquisas posteriores elaboradas\u00a0 pelo grupo de geneticistas da UEM, baseados em meus dados cromoss\u00f4micos, conseguiram marcadores espec\u00edficos para cada cit\u00f3tipo, permitindo fazer an\u00e1lises de popula\u00e7\u00f5es maiores sem ter que fazer todo o estudo cromoss\u00f4mico. Eles descobriram que o cit\u00f3tipo invasor, o 40\/40, tornou-se predominante em alguns anos. Eu j\u00e1 havia observado isso. Levei sorte de conseguir os demais cit\u00f3tipos.<\/p>\n<p>Pois bem, voltando aos<i> Astyanax<\/i>, \u00e9 bem plaus\u00edvel esta observa\u00e7\u00e3o das duas coloniza\u00e7\u00f5es. Por outro lado, marcadores de microssat\u00e9lites parecem retornar a quest\u00e3o para uma \u00fanica rota de coloniza\u00e7\u00e3o. Espinasa tamb\u00e9m falou um pouco sobre os aspectos da geologia da regi\u00e3o e o tempo de forma\u00e7\u00e3o de cada caverna. Enfim, a quest\u00e3o ainda est\u00e1 em aberto, mas eu, particularmente, tenho algumas perguntas que preciso pesquisar um pouco mais para tentar responder. A taxonomia dos peixes no M\u00e9xico \u00e9 muito confusa. Durante muito tempo chamavam os <i>Astyanax mexicanus<\/i> de <i>Astyanax fasciatus<\/i>, que tem como localidade tipo &#8220;rios do Brasil&#8221;, como j\u00e1 comentei. Ao sul do M\u00e9xico existe outra esp\u00e9cie, o <i>Astyanax aeneus<\/i> que, supostamente, tamb\u00e9m tem formas de caverna. Como est\u00e3o os cromossomos destas esp\u00e9cies? Como est\u00e3o os cromossomos das diferentes popula\u00e7\u00f5es? N\u00e3o sei. Talvez os cromossomos possam ajudar a esclarecer um pouco da hist\u00f3ria natural destes peixes, talvez n\u00e3o. No pr\u00f3ximo texto vou comentar como andam os estudos sobre express\u00e3o g\u00eanica e biologia do desenvolvimento destes peixes e \u00e9 preciso ponderar se podemos contribuir em algo com nossos estudos cromoss\u00f4micos ou toda a parafern\u00e1lia da Evo-Devo \u00e9 suficiente para dar a explica\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuando a s\u00e9rie sobre os Astyanax iniciada semanas atr\u00e1s. J\u00e1 comentei quem s\u00e3o eles e um pouco da problem\u00e1tica. Mas o que os faz t\u00e3o interessantes a ponto de haver um evento internacional acontecendo neste momento no M\u00e9xico? 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