{"id":276,"date":"2013-01-07T11:11:52","date_gmt":"2013-01-07T14:11:52","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=276"},"modified":"2013-01-07T11:11:52","modified_gmt":"2013-01-07T14:11:52","slug":"voce-quer-ser-cientista-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=276","title":{"rendered":"Voc\u00ea quer ser cientista? Mesmo?"},"content":{"rendered":"<p>Uma contribui\u00e7\u00e3o para continuar o debate sobre como \u00e9 fazer ci\u00eancia no Brasil. No futuro posso abordar algumas quest\u00f5es de modo mais aprofundado, mas por enquanto \u00e9 uma forma de complementar a informa\u00e7\u00e3o do blog da <a href=\"http:\/\/www.suzanaherculanohouzel.com\/\" target=\"_blank\">profa. Dra. Suzana Herculano<\/a>.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Voc\u00ea realmente quer ser cientista no Brasil? O caminho a seguir, especialmente se voc\u00ea quer ter um m\u00ednimo de autonomia, \u00e9 atrav\u00e9s de concurso p\u00fablico, sendo as Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino onde se oferecem a maioria das vagas. Voc\u00ea \u00e9 concursado para ser docente na gradua\u00e7\u00e3o e pode ocupar seu tempo da Dedica\u00e7\u00e3o Exclusiva em tempo integral em atividades de pesquisa cient\u00edfica.<\/p>\n<p>A Dra. Suzana Herculano toca em uma <a href=\"http:\/\/www.suzanaherculanohouzel.com\/journal\/2012\/9\/27\/voce-quer-mesmo-ser-cientista.html\" target=\"_blank\">quest\u00e3o crucial em seu texto<\/a> &#8211; o sal\u00e1rio dos cientistas. Sim, \u00e9 um ponto crucial, pois, ningu\u00e9m vive de vento. N\u00e3o tenho nada a acrescentar em rela\u00e7\u00e3o ao que ela escreveu sobre o tempo da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, aquele momento em que todo mundo acha que voc\u00ea est\u00e1 recebendo para estudar, quando na verdade n\u00e3o passa de m\u00e3o de obra barata. O valor da bolsa de mestrado \u00e9 inferior ao piso de qualquer profiss\u00e3o, lembrando que estes estudantes s\u00e3o profissionais formados.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a sal\u00e1rios, desde setembro de 2012 quando o texto foi publicado algumas quest\u00f5es mudaram, como o valor do sal\u00e1rio inicial base nas Institui\u00e7\u00f5es de Federais de Ensino (IFEs), que passou para cerca de R$3.500,00 incorporando uma antiga gratifica\u00e7\u00e3o por doc\u00eancia (que diga-se de passagem era rid\u00edcula, uma vez que os servidores s\u00e3o concursados para lecionar). Somado \u00e0 retribui\u00e7\u00e3o por titula\u00e7\u00e3o, chega-se em torno dos R$7.600,00. O que n\u00e3o se pode esquecer \u00e9 que, como todo brasileiro, paga-se o Imposto de Renda (27%) e \u00e9 descontada a contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria. Aqui tem um detalhe que muitos n\u00e3o sabem, mas ao inv\u00e9s de contribuir pelo teto, como os demais, a contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 integral (11% do valor acima), com a diferen\u00e7a que desde o in\u00edcio do governo Lula, em 2003, os professores n\u00e3o t\u00eam mais aposentadoria integral. Ou seja, voc\u00ea vai contribuir com valor cheio para sua aposentadoria, e vai receber pelo teto.<\/p>\n<p>Ora, sempre tem a iniciativa privada, n\u00e3o \u00e9 mesmo? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. Em Universidades privadas, salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, o sal\u00e1rio pago \u00e9 exclusivamente por hora em sala de aula. Fui docente em uma Universidade privada que me pagava mesmo tendo doutorado o mesmo que pagava para um especialista. Eles n\u00e3o se importavam com o t\u00edtulo, exceto na hora das avalia\u00e7\u00f5es, a\u00ed seu curr\u00edculo \u00e9 bom. Depois de dois anos consegui a proeza de ser pago por mais duas horas para me dedicar inteiramente \u00e0 pesquisa (sim, \u00e9 uma ironia, pois sem estrutura laboratorial, duas horas se pode fazer o qu\u00ea? Tentei fazer alguma coisa, mas&#8230;).<\/p>\n<p>Bom, mas eu nem estava muito interessado em abordar a quest\u00e3o salarial, que j\u00e1 foi bem descrita pela profa. Suzana. Eu acho outras quest\u00f5es ainda mais cruciais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o voc\u00ea fez sua p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em um bom lugar, teve condi\u00e7\u00f5es e recursos de reagentes e infraestrutura para desenvolver sua pesquisa. Tendo defendido seu doutorado, consegue se estabelecer atrav\u00e9s de concurso p\u00fablico em uma das milhares de vagas que foram abertas pelo governo nos \u00faltimos anos. A maioria destas vagas em <i>campus<\/i> fora de Sede no interior, ou em cursos rec\u00e9m abertos onde o MEC tem exigido uma dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 doc\u00eancia bem superior ao que os docentes mais antigos das IFEs tinham costume. Neste \u00faltimo caso, voc\u00ea passar\u00e1 boa parte do seu tempo em sala de aula e, se tiver sorte, conseguir\u00e1 se associar a algum grupo de pesquisa j\u00e1 consolidado, e poder\u00e1 desenvolver suas atividades cient\u00edficas, mesmo que seja no guarda-chuva do chefe do laborat\u00f3rio. \u00c9 claro que h\u00e1 possibilidades melhores, mas n\u00e3o s\u00e3o regra.<\/p>\n<p>O mais f\u00e1cil de acontecer \u00e9 voc\u00ea ir para o interior, onde faltam profissionais. Alguns concursos p\u00fablicos no interior s\u00e3o pouco concorridos. Assim que voc\u00ea entra voc\u00ea percebe o porqu\u00ea. Em um campus fora de Sede, no interior, voc\u00ea precisa construir tudo. Isso \u00e9 muito bom para quem tem capacidade empreendedora, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Para montar um laborat\u00f3rio de pesquisa ter\u00e1 que suar bastante e ter alguma sorte. N\u00e3o h\u00e1 editais das ag\u00eancias de fomento espec\u00edficos para se montar um laborat\u00f3rio de pesquisa. No Estado de S\u00e3o Paulo a FAPESP tem este tipo de modalidade, mas n\u00e3o sei mais como est\u00e3o suas prioridades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 institui\u00e7\u00f5es ou linhas de pesquisa. Fora disso, a verba dispon\u00edvel em geral \u00e9 menor do que a disponibilizada para quem j\u00e1 est\u00e1 com laborat\u00f3rio consolidado. Ou seja, para voc\u00ea montar seu laborat\u00f3rio, voc\u00ea ter\u00e1 menos recursos do que se tivesse com laborat\u00f3rio montado. Assim, esque\u00e7a tudo que voc\u00ea fazia na sua p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, pois vai demorar at\u00e9 ter condi\u00e7\u00f5es de desenvolver o mesmo tipo de trabalho (estou falando da \u00e1rea de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas). Demorando para desenvolver o mesmo tipo de trabalho, voc\u00ea vai presenciar uma queda em seu ritmo de publica\u00e7\u00f5es e, com isso, uma dificuldade maior para aprovar recursos para novos projetos, equipamentos, reagentes, etc.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a parte mais frustrante do trabalho de cientista no Brasil. N\u00e3o existe incentivo para fixar os doutores nos empregos novos que se est\u00e1 criando com REUNI e outros programas de expans\u00e3o do governo. O modo de pensar do governo \u00e9 que se eu n\u00e3o quero o emprego, outro quer. O problema \u00e9 que com isso os bons pesquisadores, ao perceberem que entraram em um beco-sem-sa\u00edda d\u00e3o um jeito de cair fora, pois bons pesquisadores podem ter outras oportunidades melhores (alguns at\u00e9 preferem continuar com bolsas de p\u00f3s-doutorado a encarar esta situa\u00e7\u00e3o). Com isso, em muitos casos o n\u00edvel das pesquisas no interior fica comprometido. \u00c9 claro que ser bom pesquisador n\u00e3o significa ser bom professor, e as universidades precisam de docentes, n\u00e3o \u00e9 isso? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso. Universidade \u00e9 um local de gera\u00e7\u00e3o de conhecimento, n\u00e3o de propaga\u00e7\u00e3o de conhecimento. S\u00f3 para propagar conhecimento bastaria ter mais bolsas do PROUNI nas institui\u00e7\u00f5es privadas que, em geral, se dedicam mais ao ensino e n\u00e3o \u00e0 trindade universit\u00e1ria ensino &#8211; pesquisa &#8211; extens\u00e3o.<\/p>\n<p>A burocracia do processo de tentativa para conseguir recursos para pesquisa tamb\u00e9m \u00e9 um ponto cr\u00edtico. A demora na resposta frente ao nosso t\u00e3o conhecido problema de c\u00e2mbio complica tudo. Para se ter uma ideia, estou fazendo cota\u00e7\u00e3o agora de equipamentos que, se eu conseguir aprovar a verba, o dinheiro estar\u00e1 disponibilizado daqui a mais de um ano. Mais de um ano. At\u00e9 l\u00e1 o pre\u00e7o do produto \u00e9 outro, minhas necessidades s\u00e3o outras, pois posso ter problemas em um equipamento que hoje est\u00e1 funcionando, enfim.<\/p>\n<p>Eu imagino um cen\u00e1rio ainda pior para este grande contingente de estudantes que est\u00e3o realizando est\u00e1gio no exterior atrav\u00e9s das bolsas do programa Ci\u00eancia sem Fronteiras. O pesquisador toma contato com o que h\u00e1 de mais moderno em pesquisa para retornar ao Brasil e n\u00e3o poder continuar. Frustrante, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Se n\u00e3o bastasse tudo isso, ainda tem os <a href=\"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=266#comment-185\" target=\"_blank\">pareceres esdr\u00faxulos<\/a> que recebemos das ag\u00eancias de fomento, al\u00e9m da desculpa de que h\u00e1 muito mais demanda do que verba dispon\u00edvel, e enquanto isso, alguns aprovam projetos sem que se possa entender como. A\u00ed geralmente entra seu grau de amizade com os demais pesquisadores de sua linha de pesquisa. Somos humanos, demasiado humanos. Existe uma tend\u00eancia em proteger os amiguinhos e deliberadamente prejudicar quem n\u00e3o fala am\u00e9m.<\/p>\n<p>Uma vez me disseram, &#8220;quem n\u00e3o puxa saco puxa carro\u00e7a&#8221;. Que seja assim. Continuo puxando carro\u00e7a, mas com a consci\u00eancia tranquila.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma contribui\u00e7\u00e3o para continuar o debate sobre como \u00e9 fazer ci\u00eancia no Brasil. No futuro posso abordar algumas quest\u00f5es de modo mais aprofundado, mas por enquanto \u00e9 uma forma de complementar a informa\u00e7\u00e3o do blog da profa. Dra. 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