{"id":2326,"date":"2019-03-25T11:19:07","date_gmt":"2019-03-25T14:19:07","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2326"},"modified":"2019-03-25T18:25:48","modified_gmt":"2019-03-25T21:25:48","slug":"2326","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2326","title":{"rendered":"Dias claros e noites escuras"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda lembro como se fosse hoje. Eu era apenas um menino. N\u00e3o sei, uns oito ou nove anos. Tinha rec\u00e9m aprendido a mexer com a l\u00e2mina para esculpir meus animais de madeira. Era perigoso, meu pai dizia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Use o dedal de couro e a l\u00e2mina curta com aquele cabo que fiz para voc\u00ea, que tem o tamanho da sua m\u00e3o. Se estiver bem firme o risco de escorregar e se cortar \u00e9 menor. Isso&#8230; continue \u00e0 favor do veio da madeira&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passava horas fazendo isso. Especialmente naqueles momentos antes do jantar, \u00e0 beira da fogueira. \u00c9 claro que naquela \u00e9poca todos os animais que eu fazia eram basicamente iguais. Uma cabe\u00e7a esquisita, com duas pontas protuberantes parecendo orelhas, um corpo arredondado e quatro patas. \u00c0s vezes eu esquecia do rabo e a on\u00e7a j\u00e1 se tornava um veado jovem. Talvez eu tenha algum destes guardado em algum lugar, mas depois de tudo que passamos j\u00e1 n\u00e3o sei mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os anos sub\u00edamos a montanha e acamp\u00e1vamos pr\u00f3ximo \u00e0 nascente do riacho para fazer a busca de cogumelos. Uma semana em fam\u00edlia, dormindo em barracas e cozinhando na fogueira. A temporada havia come\u00e7ado h\u00e1 uma semana e sempre nos prepar\u00e1vamos para partir logo no in\u00edcio, para colher os mais frescos, dizia meu pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era uma noite fria no in\u00edcio da primavera, mais ou menos como essa de hoje. O c\u00e9u estava limpo e uma brisa suave balan\u00e7ava levemente as folhas das \u00e1rvores. A lua crescente permitia observar o brilho de cada estrela, como se pequenas chamas de vela estivessem acesas na escurid\u00e3o distante. O crepitar das chamas da fogueira queimando galhos secos abafava ligeiramente os sons de sapos, insetos, corujas e outros animais noturnos do bosque \u00famido. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a fogueira, pendurada em um suporte, um pequeno caldeir\u00e3o onde peda\u00e7os de carne de lebre cozida com batatas e cenouras fervia. Meu pai ia mexendo de quando em quando enquanto uma massa de p\u00e3o assava junto \u00e0 brasa da fogueira para acompanhar o ensopado. Aquele havia sido um bom dia de busca por cogumelos e o perfume do ensopado ficou ainda mais apetitoso quando ele acrescentou uma bela quantidade deles. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele nem sempre era o respons\u00e1vel pelo jantar, mas naquele dia, especialmente, tropecei em uma raiz enquanto corria pela bosque e rolei em um pedregulho por uns 20 metros morro abaixo. Crian\u00e7a ou se machuca feio ou n\u00e3o acontece nada nesses casos. Sa\u00ed ileso, mas com um buraco enorme na minha blusa. Minha m\u00e3e estava costurando enquanto meu pai cozinhava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu j\u00e1 estava com fome, ent\u00e3o at\u00e9 esculpir meus animais estava me entediando. Deitei ao lado da fogueira e comecei a olhar a lua, as estrelas. O ensopado ainda iria demorar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Por que \u00e9 escuro de noite, onde est\u00e1 o Sol?&#8221; perguntei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\tLembro que essa n\u00e3o era a primeira vez que eu perguntava. Crian\u00e7as sempre perguntam a mesma coisa v\u00e1rias vezes, at\u00e9 que a resposta seja satisfat\u00f3ria. Minha m\u00e3e me disse mais uma vez, que a Terra fazia um movimento de girar em torno do seu eixo, rodopiando enquanto girava ao redor do Sol, e que quando a nossa parte do planeta estava de frente para o Sol era dia, e quando girava em dire\u00e7\u00e3o ao outro lado, escurecia. Dessa vez, eu lembro como se fosse hoje, ela pegou uma laranja, fez uma marca de um lado e a rodou em frente \u00e0 fogueira. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Est\u00e1 vendo? &#8211; Disse ela. Imagine que somos essa marca. Quando estamos de frente para o Sol, \u00e9 dia, no momento em que giramos para o outro lado, fica escuro, \u00e9 noite&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Sim, voc\u00ea j\u00e1 me disse isso, eu j\u00e1 entendi. Mas quando come\u00e7ou? Quando foi a primeira noite? Isso n\u00e3o assustou as pessoas?&#8221; &#8211; eu perguntava sem parar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Quando os seres humanos se deram conta de sua exist\u00eancia no planeta, as coisas j\u00e1 eram assim h\u00e1 milh\u00f5es de anos. Sempre foram, desde que o planeta foi formado&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Essa \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; resmungou meu av\u00f4 do outro lado da fogueira. &#8220;Mas os povos antigos sabiam exatamente como tudo come\u00e7ou&#8221; &#8211; continuou ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Xi, l\u00e1 vem o vov\u00f4 com suas hist\u00f3rias tribais&#8221; &#8211; comentou meu pai &#8211; &#8220;Vai dizer que antigamente n\u00e3o existia dia e noite&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Ora, \u00e9 claro que sempre existiu dia e noite, s\u00f3 n\u00e3o da forma como conhecemos hoje&#8221; &#8211; disse meu av\u00f4. &#8220;E voc\u00ea conhece bem a hist\u00f3ria pois eu j\u00e1 contei pra voc\u00ea. Vai dizer que j\u00e1 se esqueceu? Eu esperava que voc\u00ea contasse para o meu neto&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu n\u00e3o esqueci, claro que n\u00e3o. S\u00f3 estou te enchendo a paci\u00eancia para ver se a hist\u00f3ria \u00e9 consistente. Nunca contei pra ele porque queria que voc\u00ea pudesse fazer isso e porque ele nunca perguntou quando est\u00e1vamos sozinhos. A honra \u00e9 sua, pode contar. Pode contar pra ele que a Terra \u00e9 plana&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu av\u00f4 j\u00e1 n\u00e3o lembrava direito de datas, de quando ouviu a hist\u00f3ria pela primeira vez, e nem de quantas vezes j\u00e1 havia contado. Mas ele parecia ter ficado muito animado com a possibilidade de cont\u00e1-la outra vez. Parecia at\u00e9 ter esquecido das dores nas costas e no tornozelo, que praticamente o impediam de fazer grandes caminhadas, como as que faz\u00edamos para buscar cogumelos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;\u00c9 \u00f3bvio que a Terra n\u00e3o \u00e9 plana, como sabemos muito bem&#8221; disse meu av\u00f4 enquanto limpava seus \u00f3culos e sorria com certo sarcasmo para meu pai. &#8220;Pelo menos, n\u00e3o hoje, n\u00e3o mais&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembro que isso fez uma confus\u00e3o imensa em minha cabe\u00e7a. Como assim, n\u00e3o hoje? Como assim, n\u00e3o mais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os antepassados de meu av\u00f4 pertenceram a uma tribo remanescente da grande destrui\u00e7\u00e3o, que ficou isolada durante muitos anos at\u00e9 ser encontrada acidentalmente e reintegrada ao que conhecemos como civiliza\u00e7\u00e3o atual. Poucos sabiam a arte de ler e escrever em suas origens, e o aprendizado foi se perdendo. As hist\u00f3rias passaram a ser contadas apenas oralmente, de pai pra filho. N\u00e3o sabemos ao certo quando elas come\u00e7aram e onde tiveram origem. A arqueologia, uma antiga ci\u00eancia de desvendar o passado n\u00e3o era mais que hist\u00f3rias nos livros, uma vez que a ci\u00eancia foi perdida e as necessidades humanas se tornaram outras. S\u00f3 nos resta ouvir as hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contam os membros dessa tribo que antes de existir dias e noites de acordo com a rota\u00e7\u00e3o da Terra e nossa posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao Sol, a Terra era plana, como um disco, e todos os seres vivos viviam em um dos lados, na imensa plan\u00edcie da superf\u00edcie. O deus Vur\u2019Tsa era respons\u00e1vel por brilhar e esmaecer criando per\u00edodos de penumbra e claridade enquanto reinava em uma montanha no centro do disco terrestre. Ele j\u00e1 fazia isso h\u00e1 milhares de anos, desde o in\u00edcio dos tempos do planeta, e estava cansado. Humanos dedicados eram escolhidos para serem seus servos, produzindo cerveja e levando para aliment\u00e1-lo quando estava brilhando. Seus momentos de penumbra e claridade marcavam os momentos de trabalho e descanso dos povos, de modo que todos tinham o costume de dormir e acordar no mesmo hor\u00e1rio. Os dias n\u00e3o eram t\u00e3o claros como hoje, nem as noites t\u00e3o escuras. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certo dia um dos servos errou a medida do l\u00fapulo deixando a cerveja extremamente amarga. Para n\u00e3o descartar o l\u00edquido precioso, adicionou mais malte e grandes quantidades de mel, e colocou para fermentar. O resultado foi uma cerveja adocicada, mas com muito \u00e1lcool. Vur&#8217;Tsa no in\u00edcio achou estranha, mas aquele adocicado o fazia beber mais e mais. Muito mais do que deveria. E tal qual os humanos (que afinal, s\u00e3o espelhos dos deuses) que quando bebem demais fazem bobagens, esse deus assim o fez. Resolveu que n\u00e3o iria mais definir a penumbra e claridade, um trabalho que era um castigo de seu pai por ter ele criado acidentalmente a Terra e seus habitantes (mas essa era uma outra hist\u00f3ria, dizia meu av\u00f4). E ent\u00e3o, no meio de seu devaneio alco\u00f3lico ele teve a ideia de criar um astro t\u00e3o brilhante que poderia substitu\u00ed-lo nos momentos de claridade, e ele poderia ficar livre para conhecer outros mundos enquanto isso. Nisso ele criou o Sol. Criou o Sol e desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao criar o Sol, Vur\u2019Tsa despertou a grande besta Ka\u2019al que estava adormecida em uma caverna, bem distante das aldeias humanas que estavam espalhadas pelo disco terrestre. Ningu\u00e9m percebeu o despertar da besta, nem mesmo o Vur\u2019Tsa, que n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia. Eu sempre me perguntei de onde essa besta tinha sa\u00eddo, mas meu av\u00f4 sempre dizia que essa era outra hist\u00f3ria, uma que ele jamais p\u00f4de me contar. Ningu\u00e9m percebeu nada no in\u00edcio, pois a grande besta n\u00e3o podia sair da caverna com a luz do Sol. A luz a incomodava. E quanto mais tempo a luz do Sol brilhava, mais os olhos da besta eram sensibilizados e ela queria fugir. Isso fez com que ela cavasse mais e mais, e mais e mais. At\u00e9 atravessar o disco terrestre saindo do lado oposto. O lado oposto era o nada, e a besta agora desperta estava com fome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto isso os humanos da Terra trabalhavam pois, era dia. Mas esse dia n\u00e3o acabava e eles j\u00e1 estavam cansados. E o dia n\u00e3o acabava, e aquela luz j\u00e1 era insuport\u00e1vel. Todos suplicaram, chamando Vur\u2019Tsa. Ele ouviu um murm\u00fario distante e percebeu que era um chamado. Retornou \u00e0 Terra e viu que havia esquecido o Sol brilhando, deixando todos acordados e trabalhando durante tempo demais. Estavam exaustos, sem saber o que fazer. Rapidamente o Vur\u2019Tsa empurrou o Sol para o lado oposto do disco terrestre deixando a superf\u00edcie extremamente na penumbra, mas que aos olhos dos humanos representava uma escurid\u00e3o total depois da grande exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz solar por um grande tempo. O desconforto da escurid\u00e3o fez com que eles fechassem os olhos aguardando a aclimata\u00e7\u00e3o. Um desconforto que s\u00f3 n\u00e3o foi pior que o som que ouviram a seguir. Incomodada pela luz do Sol que brilhava do lado oposto, a grande besta adentrou gritando em sua caverna e saiu do outro lado, no lado da superf\u00edcie. Imediatamente sentiu um cheiro, cheiro de humanos, cheiro de alimento. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ver os humanos indefesos diante da besta, o Vur\u2019Tsa pulou e a agarrou pela cauda, jogando-a de encontro \u00e0 montanha, derrubando boa parte das pedras que l\u00e1 estavam h\u00e1 mil\u00eanios e as espalhando pela Terra formando in\u00fameras montanhas menores. A besta ent\u00e3o precipitou-se em dire\u00e7\u00e3o ao deus e ao mesmo tempo em que chicoteava-o nas costas com sua longa cauda, mordia o bra\u00e7o de Vur\u2019Tsa com seus dentes afiados como navalhas. Vur\u2019Tsa esgueirou-se para se defender da boca mas com o golpe recebido nas costas n\u00e3o conseguiu afastar completamente os dentes da besta que ainda arranharam o seu bra\u00e7o. Enquanto Vur\u2019Tsa ca\u00eda com um grave gemido de dor, a besta jogou-se em cima dele, segurando os seus bra\u00e7os e mordendo seu ombro direito. Um pux\u00e3o forte arrancou o bra\u00e7o de Vur\u2019Tsa que ao mesmo tempo conseguiu empurrar a besta com os p\u00e9s fazendo com que ela se afastasse. Muito sangue escorreu do bra\u00e7o arrancado de Vur\u2019Tsa, formando grandes oceanos que se espalharam pela superf\u00edcie do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cheiro dos humanos era um deleite para Ka\u2019al. Quando tentou pular em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 aldeia mais pr\u00f3xima, Vur\u2019Tsa puxou-a pela cauda novamente e no reflexo de se defender ela acertou o rosto de Vur\u2019Tsa com as suas garras fazendo uma profunda marca e arrancando um dos seus olhos. Ao cair na superf\u00edcie da Terra, o olho de Vur\u2019Tsa se quebrou em milh\u00f5es de peda\u00e7os, tornando-se veios de ouro e pedras preciosas. Ka\u2019al novamente segurou Vur\u2019Tsa com as garras, e no momento exato em que ia engolir a cabe\u00e7a dele completamente, um brilho a atrapalhou. Naquela aldeia pr\u00f3xima, um humano abriu os olhos. E outro, depois outro. Os olhos abertos dos humanos refletiam um tipo especial de luz que incomodava a besta tanto quanto o pr\u00f3prio Sol. Percebendo isso, Vur\u2019Tsa tentou brilhar, mas estava muito fraco e n\u00e3o conseguiu. Por fim, com todos os humanos de olhos abertos a besta fugiu e gritando retornou para o fundo da caverna, isolando-se da luz do Sol que estava abaixo e dos olhos abertos dos humanos, acima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vur\u2019Tsa se recuperou em pouco tempo, afinal era um deus. Logo voltou a brilhar e proteger os humanos da besta. Mas no fundo sabia que eles n\u00e3o mais precisavam dele, pois enquanto estivessem de olhos abertos a besta jamais os amea\u00e7aria. O problema era manter per\u00edodos de claridade e escurid\u00e3o para que os humanos pudessem trabalhar e descansar. Durante algum tempo tentou deixar que alguns humanos ficassem acordados na penumbra para fazer vig\u00edlia, mas como n\u00e3o conseguiam adormecer durante a fase brilhante enlouqueceram em poucos dias. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o ele teve uma ideia. Espremeu a Terra e a transformou em uma esfera, for\u00e7ando-a a girar sobre si mesma. Assim, enquanto parte das aldeias estava dormindo, parte estava \u00e0 luz do Sol, de modo que nunca estariam todos os humanos com os olhos fechados ao mesmo tempo. Desde ent\u00e3o temos os dias e as noites, e enquanto os humanos mantiverem seus olhos abertos, a besta jamais retornar\u00e1, e nunca mais precisaremos de Vur\u2019Tsa, que se tornou livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conta meu av\u00f4 que algumas tribos n\u00e3o acreditaram que estavam livres da besta, e at\u00e9 hoje pensam que a Terra \u00e9 plana. Ainda aguardam a chegada da besta e pedem prote\u00e7\u00e3o a Vur\u2019Tsa como se ignorassem o poder que seus olhos abertos manifestam. Mas essa tamb\u00e9m \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda lembro como se fosse hoje. Eu era apenas um menino. N\u00e3o sei, uns oito ou nove anos. Tinha rec\u00e9m aprendido a mexer com a l\u00e2mina para esculpir meus animais de madeira. 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