{"id":2308,"date":"2019-02-25T08:44:20","date_gmt":"2019-02-25T11:44:20","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2308"},"modified":"2019-02-25T08:50:08","modified_gmt":"2019-02-25T11:50:08","slug":"ignorar-toda-a-biologia-nao-a-torna-menos-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2308","title":{"rendered":"Ignorar TODA a biologia n\u00e3o a torna menos real"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos de negacionismo clim\u00e1tico, movimento antivacina\u00e7\u00e3o, antievolucionismo e v\u00e1rias outras a\u00e7\u00f5es anti-intelectualistas que temos visto, chega a ser paradoxal fazer uma cr\u00edtica de um texto que tem como t\u00edtulo \u201c<a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Ignorar a biologia n\u00e3o a torna menos real (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/www.dailysignal.com\/2019\/02\/06\/ignoring-biology-doesnt-make-it-less-real\/\" target=\"_blank\">Ignorar a biologia n\u00e3o a torna menos real<\/a>\u201d do professor Walter E. Williams com tradu\u00e7\u00e3o publicada no jornal Gazeta do Povo (publica\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas tem paywall, por isso preferi deixar o link para a publica\u00e7\u00e3o original, mas basta uma busca pelo t\u00edtulo que voc\u00ea encontra o texto facilmente). Afinal, eu concordo plenamente com o t\u00edtulo. Seria o t\u00edtulo perfeito para falar sobre aquecimento global, vacinas ou evolu\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel concordar com o t\u00edtulo, e nada mais. Toda a argumenta\u00e7\u00e3o do texto se baseia em uma supersimplifica\u00e7\u00e3o da biologia que est\u00e1 muito aqu\u00e9m do conhecimento que temos hoje. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\tPesquisadores das Ci\u00eancias Humanas possuem outras explica\u00e7\u00f5es para as quest\u00f5es da sexualidade, mas na minha opini\u00e3o elas n\u00e3o s\u00e3o excludentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s explica\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, talvez complementares. Isso porque sabemos que o fen\u00f3tipo (as caracter\u00edsticas observadas) \u00e9 produto do gen\u00f3tipo (o que est\u00e1 escrito nos genes) e do ambiente. Em alguns casos, o potencial do gen\u00f3tipo \u00e9 maior, em outros \u00e9 menor. Al\u00e9m disso, o fato de \u201ctermos genes para algo\u201d n\u00e3o significa que iremos apresentar o fen\u00f3tipo.\t<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dito isso, vale entender o que a biologia tem a dizer sobre as quest\u00f5es da sexualidade. No texto citado, o autor usa a biologia de modo conveniente para respaldar sua opini\u00e3o de que nascemos homens ou mulheres conforme nossos cromossomos sexuais. Ele n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico a ter esse pensamento equivocado. No Brasil mesmo temos fundamentalistas que insistem em usar este argumento para embasar suas cren\u00e7as de que a biologia (ou a natureza) nos faz heterossexuais, homens ou mulheres cis. Com isso tentam convencer que sua discrimina\u00e7\u00e3o teria uma base cient\u00edfica, biol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se reduz tudo aos cromossomos ditos sexuais, o X e o Y, esquecemos de todos os outros 22 pares que na realidade possuem a maior parte das caracter\u00edsticas que julgamos relacionadas com a sexualidade. Cromossomos nada mais s\u00e3o do que mol\u00e9culas de DNA organizadas com prote\u00ednas e cada mol\u00e9cula de DNA (ou cromossomo) pode ter centenas de genes. Uma mol\u00e9cula de DNA est\u00e1 sujeita \u00e0 muta\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es em sua estrutura produzindo formas variantes dos genes. E o DNA dos organismos vivos \u00e9 muito vari\u00e1vel em qualquer trecho ou cromossomo que voc\u00ea observe. Essas varia\u00e7\u00f5es no DNA podem n\u00e3o ter efeito algum na caracter\u00edstica observada, podem promover uma pequena altera\u00e7\u00e3o in\u00f3cua, assim como podem causar altera\u00e7\u00f5es severas e impactantes como no caso de milhares de doen\u00e7as gen\u00e9ticas conhecidas. A combina\u00e7\u00e3o dessas varia\u00e7\u00f5es nos torna indiv\u00edduos \u00fanicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em todo caso, usar a biologia para negar direitos civis \u00e0s pessoas \u00e9 um absurdo. Especialmente quando usamos uma biologia equivocada, como pensar que os cromossomos sexuais X e Y s\u00e3o inteiramente respons\u00e1veis por todos os aspectos da sexualidade humana. O cromossomo Y possui um gene respons\u00e1vel por desenvolver genit\u00e1lia masculina (escroto com test\u00edculos e p\u00eanis) em mam\u00edferos ap\u00f3s a 12a. semana de gesta\u00e7\u00e3o. Antes disso somos todos iguais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As caracter\u00edsticas sexuais secund\u00e1rias, no entanto, s\u00e3o bem mais relacionadas com quest\u00f5es hormonais, como a testosterona, por exemplo. A testosterona \u00e9 o conhecido horm\u00f4nio masculino, mas n\u00e3o \u00e9 exclusivo de homens. Tamb\u00e9m \u00e9 produzido nos ov\u00e1rios. Ou seja, os genes respons\u00e1veis pelas cinco etapas de convers\u00e3o do colesterol em testosterona n\u00e3o est\u00e3o no cromossomo Y. E s\u00e3o cinco etapas sujeitas \u00e0 varia\u00e7\u00e3o nos genes. Sem o cromossomo Y ser\u00e1 formada um aparelho reprodutor com genit\u00e1lia feminina, vagina, \u00fatero e ov\u00e1rios. Isso n\u00e3o diz absolutamente nada sobre as demais caracter\u00edsticas inerentes \u00e0 sexualidade como a atra\u00e7\u00e3o sexual ou a forma como a pessoa se v\u00ea. Uma pessoa pode se sentir alta, baixa, magra, gorda, feliz ou triste sem realmente aparentar isso mas voc\u00ea n\u00e3o impede uma pessoa magra de frequentar academia porque ela se sente gorda. A forma como as pessoas se v\u00eaem ou se sentem s\u00e3o quest\u00f5es neurol\u00f3gicas de foro \u00edntimo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, as regras da atra\u00e7\u00e3o envolvem uma s\u00e9rie de horm\u00f4nios como a pr\u00f3pria testosterona, oxitocina, entre outros. Estes horm\u00f4nios, bem como os neurotransmissores e a pr\u00f3pria estrutura do sistema nervoso central, s\u00e3o produtos de genes e, por conta disso, sujeitos \u00e0 varia\u00e7\u00e3o. Da mesma forma que a constru\u00e7\u00e3o da pessoa como ser humano tamb\u00e9m \u00e9 dependente do contexto social em que ela vive, que pode at\u00e9 mesmo interferir nos componentes gen\u00e9ticos atrav\u00e9s do que conhecemos como epigen\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fato de conhecermos a biologia nos permite discriminar pessoas por conta da varia\u00e7\u00e3o que ela apresenta? Ou limitar direitos civis? Por exemplo, existe uma varia\u00e7\u00e3o em um gene que faz com que uma pessoa sinta um gosto muito ruim no coentro. Ela simplesmente n\u00e3o consegue comer nada que tenha coentro fresco. Podemos obrig\u00e1-la a comer um belo prato cheio de coentro? Temos esse direito? Podemos impedir que ela exer\u00e7a seus direitos civis, que case-se com outra pessoa que tamb\u00e9m tem intoler\u00e2ncia ao coentro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\tCromossomos, por sua vez, tamb\u00e9m podem pregar pe\u00e7as. Acontece de uma pessoa ter um cromossomo grudado na ponta de outro. Chamamos de fus\u00e3o. Essa pessoa n\u00e3o apresenta problema algum pois todos os seus genes est\u00e3o ali. Por\u00e9m, a forma\u00e7\u00e3o dos gametas podem ser alteradas carregando duas ou nenhuma c\u00f3pia de um cromossomo onde deveria haver apenas uma. Essas pessoas com essa varia\u00e7\u00e3o cromoss\u00f4mica s\u00e3o menos humanas? Merecem ter seus direitos civis negados? Por que ent\u00e3o queremos negar direitos civis \u00e0 quem tem determinadas varia\u00e7\u00f5es, sejam cromoss\u00f4micas, sejam no DNA ou mesmo na forma como esse DNA se expressa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se podemos tolerar algumas varia\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o podemos tolerar outras? Eu quero poder evitar um prato com coentro para n\u00e3o ter que sentir gosto de sab\u00e3o na comida. N\u00e3o tenho esse direito? Se \u00e9 para trazer a biologia para a discuss\u00e3o (e acho que ela n\u00e3o pode ser ignorada, pois ela existe, n\u00e3o \u00e9 mesmo?), ent\u00e3o devemos fazer isso da forma correta, utilizando todo o conhecimento biol\u00f3gico que acumulamos ao longo dos anos. <br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de negacionismo clim\u00e1tico, movimento antivacina\u00e7\u00e3o, antievolucionismo e v\u00e1rias outras a\u00e7\u00f5es anti-intelectualistas que temos visto, chega a ser paradoxal fazer uma cr\u00edtica de um texto que tem como t\u00edtulo \u201cIgnorar a biologia n\u00e3o a torna menos real\u201d do professor Walter E. 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