{"id":2148,"date":"2015-11-19T09:04:38","date_gmt":"2015-11-19T12:04:38","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2148"},"modified":"2015-11-19T09:04:38","modified_gmt":"2015-11-19T12:04:38","slug":"transgenicos-terminator","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2148","title":{"rendered":"Transg\u00eanicos &#8211; terminator"},"content":{"rendered":"<p>Os organismos geneticamente modificados pela inser\u00e7\u00e3o de sequ\u00eancia de DNA ex\u00f3geno, tamb\u00e9m conhecidos como transg\u00eanicos, t\u00eam sido alvo de muita especula\u00e7\u00e3o, ceticismo e resist\u00eancia pela popula\u00e7\u00e3o em geral e, especialmente, por ambientalistas. Vou tentar come\u00e7ar uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es sobre transg\u00eanicos mas n\u00e3o vou fazer isso em uma cronologia did\u00e1tica, me perdoem. Vamos discutindo t\u00f3picos espec\u00edficos. Para saber um pouco mais sobre transg\u00eanicos, sugiro ouvir nosso podcast Rock com Ci\u00eancia. Temos um epis\u00f3dio dos prim\u00f3rdios do programa, sobre <a href=\"http:\/\/www.rockcomciencia.com.br\/arquivos\/106\" target=\"_blank\">Biotecnologia<\/a>, e outro mais recente, especificamente sobre <a href=\"http:\/\/www.rockcomciencia.com.br\/arquivos\/2154\" target=\"_blank\">Transg\u00eanicos<\/a>.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de hoje \u00e9 uma discuss\u00e3o que tem acontecido h\u00e1 alguns anos, sobre a utiliza\u00e7\u00e3o de uma tecnologia atualmente proibida no Brasil, a tecnologia GURT (Genetic Use Restriction Technology, ou Tecnologia de restri\u00e7\u00e3o de uso gen\u00e9tico). Esta tecnologia restringe o uso da semente geneticamente modificada, impedindo, por exemplo, que um produtor use as sementes obtidas em sua planta\u00e7\u00e3o para plantar na temporada seguinte.<\/p>\n<p>Depois das primeiras tentativas de avan\u00e7ar este assunto no nosso legislativo federal, este ano surgiu um novo Projeto de Lei (<a href=\"http:\/\/www2.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=1203150\" target=\"_blank\">1117\/2015 de autoria de Alceu Moreira &#8211; PMDB\/RS<\/a>). Isso parece maldade, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Por mais avers\u00e3o que eu tenha \u00e0 bancada ruralista (e tenho) neste assunto eu n\u00e3o discordo completamente deles. Vou explicar.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma tecnologia que protege o investimento da empresa, sem d\u00favida alguma. Ali\u00e1s, o investimento em biotecnologia n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. S\u00e3o muitos anos de pesquisa e muito dinheiro investido para se liberar um novo produto no mercado. Se voc\u00ea investe tanto assim, n\u00e3o ia querer que as pessoas pudessem comprar seu produto uma \u00fanica vez e ter lucros indefinidamente com aquilo que voc\u00ea desenvolveu, n\u00e3o? Algo que permitisse isso provavelmente teria valores de comercializa\u00e7\u00e3o beirando um grande investimento de longo prazo. Algo como um im\u00f3vel, por exemplo. Infelizmente temos que pensar neste lado da quest\u00e3o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas eu gostaria de apontar aqui um outro lado. Uma outra grande preocupa\u00e7\u00e3o dos ambientalistas \u00e9 a possibilidade de que o gene ex\u00f3geno inserido numa cultivar contamine planta\u00e7\u00f5es vizinhas convencionais ou, pior ainda, contamine plantas nativas da mesma esp\u00e9cie ou aparentadas. H\u00e1 uma s\u00e9rie de quest\u00f5es a se considerar para chegarmos neste cen\u00e1rio. A esp\u00e9cie precisa ser al\u00f3gama, ou ter um grau de alogamia razo\u00e1vel. Alogamia \u00e9 a fecunda\u00e7\u00e3o cruzada, quando um indiv\u00edduo de uma planta precisa enviar p\u00f3len para fecundar um outro indiv\u00edduo. O milho, por exemplo, \u00e9 uma planta al\u00f3gama. Uma planta precisa fecundar outra. H\u00e1 plantas aut\u00f3gamas, em que o pr\u00f3prio p\u00f3len fecunda seu pr\u00f3prio \u00f3vulo, como a soja, por exemplo.<\/p>\n<p>Como o milho tem seu p\u00f3len disperso pelo vento, ele pode alcan\u00e7ar planta\u00e7\u00f5es vizinhas e fecundar uma planta\u00e7\u00e3o convencional. Por isso, na legisla\u00e7\u00e3o h\u00e1 especificidades quanto a dist\u00e2ncia entre planta\u00e7\u00f5es transg\u00eanicas e convencionais, bem como sobre barreiras para evitar esta contamina\u00e7\u00e3o. Existe uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande e extremamente justificada, de escape g\u00eanico de planta\u00e7\u00f5es transg\u00eanicas para variedades nativas. Afinal, apesar de anos de melhoramento gen\u00e9tico levando a variedades muito diferentes das originais, tecnicamente as plantas melhoradas e suas originais s\u00e3o intercruzantes. Por isso o uso de transg\u00eanicos nas regi\u00f5es de origem da planta nativa precisa ser muito bem regulamentado. Existe tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o do cruzamento das plantas geneticamente modificadas com outras plantas da localidade. Convenhamos, a\u00ed precisa bastante sorte (ou azar) e imagina\u00e7\u00e3o. Por mais que isso eventualmente possa acontecer, h\u00e1 que se considerar que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o gene inserido que vai ser problema. Por outro lado temos a sele\u00e7\u00e3o natural que em geral age contra estes desvios (ok, nem sempre, mas a\u00ed voltamos na quest\u00e3o de sorte\/azar).<\/p>\n<p>Enfim, existe a preocupa\u00e7\u00e3o com contamina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de cruzamentos. E em alguns aspectos considero esta preocupa\u00e7\u00e3o v\u00e1lida. E \u00e9 muito v\u00e1lida quando pensamos nas variedades nativas. Qual seriam as solu\u00e7\u00f5es para diminuir a possibilidade de fluxo g\u00eanico, ou seja, a transmiss\u00e3o de genes da planta transg\u00eanica para as variedades nativas? Existem algumas <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC3471138\/\" target=\"_blank\">alternativas moleculares<\/a> para evitar o fluxo g\u00eanico, embora nenhum seja completamente eficiente e aplic\u00e1vel para qualquer esp\u00e9cie. O GURT faz isso. Caso o p\u00f3len de um transg\u00eanico contendo GURT fecunde uma planta nativa, embora at\u00e9 possa resultar em sementes com o gene ex\u00f3geno, estas sementes n\u00e3o germinar\u00e3o, eliminando a linhagem na hora. N\u00e3o h\u00e1 chance de comprometer todas as variedades nativas.<\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o importante est\u00e1 relacionada com o uso de plantas como biorreatores, ou seja, plantas que produzem f\u00e1rmacos para uso em humanos. Com esta tecnologia, o gene inserido fica restrito ao seu &#8220;hospedeiro&#8221;.<\/p>\n<p>E \u00e9 basicamente isso que o PL 1117\/2015 busca. Tecnologias de restri\u00e7\u00e3o de uso continuar\u00e3o proibidas exceto:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;quando as tecnologias de restri\u00e7\u00e3o de uso forem introduzidas em plantas biorreatoras ou plantas que possam ser multiplicadas vegetativamente;&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>ou<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;quando o uso da tecnologia comprovadamente constituir uma medida de biosseguran\u00e7a ben\u00e9fica \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da atividade.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Alguns podem concordar mais facilmente com o primeiro \u00edtem (eu tamb\u00e9m). Mas podem argumentar que ent\u00e3o v\u00e3o comprovar que \u00e9 ben\u00e9fico em qualquer cultivar. Podem tentar, mas lembre que para ser liberado precisa passar pelo CTNBio &#8211; Comiss\u00e3o T\u00e9cnica Nacional de Biosseguran\u00e7a, o \u00f3rg\u00e3o que analisa as propostas das empresas desde antes dos primeiros testes come\u00e7arem. E este \u00f3rg\u00e3o \u00e9 formado por<a href=\"http:\/\/www.ctnbio.gov.br\/index.php\/content\/view\/2251.html\" target=\"_blank\"> especialistas e representantes de v\u00e1rias \u00e1reas<\/a>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m v\u00e3o dizer por a\u00ed que isso impede a liberdade do produtor de segurar parte de sua colheita para plantar no ano seguinte. Oras, a maioria j\u00e1 faz isso h\u00e1 anos com planta\u00e7\u00f5es de milho. A maior parte do milho plantado no Brasil \u00e9 h\u00edbrido. H\u00edbridos s\u00e3o produzidos por cruzamentos entre linhagens diferenciadas, onde se explora o chamado vigor h\u00edbrido. Este vigor h\u00edbrido decai em 50% a cada gera\u00e7\u00e3o, ou seja, voc\u00ea pode at\u00e9 guardar as sementes obtidas na sua planta\u00e7\u00e3o de milho h\u00edbrido, mas dificilmente conseguir\u00e1 a mesma produtividade. Fica mais lucrativo comprar novamente a semente para a nova planta\u00e7\u00e3o. Ou seja, quem planta milho j\u00e1 est\u00e1 acostumado com isso.<\/p>\n<p>Mas tem muita gente plantando linhagens criolas, ou seja, linhagens melhoradas de modo convencional, que s\u00e3o muito mais pr\u00f3ximas das nativas ou as que os ind\u00edgenas plantavam. Alguns argumentam que a tecnologia GURT vai acabar com isso.<\/p>\n<p>Ora, tem que ter muita imagina\u00e7\u00e3o. Primeiro que quem planta as linhagens criolas vai poder continuar plantando as linhagens criolas, ningu\u00e9m vai impedir. Quem as produz j\u00e1 acha que isso \u00e9 um nicho de mercado. Al\u00e9m do qu\u00ea, basta guardar as sementes, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Este agricultor j\u00e1 est\u00e1 fora do mercado padr\u00e3o de alta produtividade. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 consumidor das sementes h\u00edbridas. Absolutamente nada vai acontecer com ele! Pelo contr\u00e1rio, GURT vai impedir que planta\u00e7\u00f5es transg\u00eanicas contaminem seus estoques criolos. Na realidade, estes produtores deveriam ser os primeiros a exigir que os transg\u00eanicos tenham mecanismos para impedir o fluxo g\u00eanico de modo efetivo.<\/p>\n<p>Li em websites esquisitos por a\u00ed uma preocupa\u00e7\u00e3o em que este GURT seja passado para plantas nativas contaminando, etc. Ok, digamos que aconte\u00e7a. Qual o resultado? Nenhum. Esta \u00e9 a grande vantagem do GURT e de outras t\u00e9cnicas de controle do fluxo g\u00eanico.<\/p>\n<p>Enfim, mais uma vez, tenho s\u00e9rias restri\u00e7\u00f5es \u00e0 bancada ruralista. Mas n\u00e3o podemos deixar isso superar a racionalidade. T\u00e9cnicas de restri\u00e7\u00e3o ao fluxo g\u00eanico s\u00e3o importantes para evitar tudo que muitos ambientalistas temem (\u00e0s vezes com raz\u00e3o, \u00e0s vezes n\u00e3o como ainda vou abordar em outra postagem). Economicamente n\u00e3o trar\u00e1 grande impacto em quem j\u00e1 produz grandes cultivares. E n\u00e3o trar\u00e1 preju\u00edzo a quem quer plantar linhagens ou sementes criolas. Especialmente no caso do milho, se isso fosse problema o advento do milho h\u00edbrido j\u00e1 teria bagun\u00e7ado tudo h\u00e1 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os organismos geneticamente modificados pela inser\u00e7\u00e3o de sequ\u00eancia de DNA ex\u00f3geno, tamb\u00e9m conhecidos como transg\u00eanicos, t\u00eam sido alvo de muita especula\u00e7\u00e3o, ceticismo e resist\u00eancia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[5],"tags":[274,275,272,276,273],"class_list":["post-2148","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia","tag-biotecnologia","tag-gurt","tag-milho-hibrido","tag-terminator","tag-transgenicos"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2148"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2148\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2149,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2148\/revisions\/2149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}