{"id":2118,"date":"2015-10-23T07:00:20","date_gmt":"2015-10-23T10:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2118"},"modified":"2015-10-20T13:37:56","modified_gmt":"2015-10-20T16:37:56","slug":"erros-conceituais-na-divulgacao-cientifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2118","title":{"rendered":"Erros conceituais na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica"},"content":{"rendered":"<p>Mais um artigo publicado no\u00a0<a href=\"http:\/\/observatoriodaimprensa.com.br\/imprensa-em-questao\/erros-conceituais-na-divulgacao-cientifica\/\" target=\"_blank\">Observat\u00f3rio da Imprensa, em 28\/10\/2008<\/a>. Neste texto eu comento sobre um artigo que saiu na Scientific American Brasil alguns meses antes, sobre a imprecis\u00e3o dos textos de jornalismo cient\u00edfico e a vulgariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Me impressionou como o autor tratou do tema, de modo muito semelhante ao que eu j\u00e1 havia escrito.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>Ao ler o artigo de autoria do dr. Enos Picazzio na revista <i>Scientific American Brasil<\/i> de agosto, \u2018Quando a divulga\u00e7\u00e3o apenas desinforma\u2019, senti-me satisfeito e preocupado. Satisfeito ao perceber que n\u00e3o sou o \u00fanico a me preocupar com o modo como a m\u00eddia em geral \u2018populariza\u2019 a ci\u00eancia. Preocupado por levar tr\u00eas anos desde minha primeira nota no <i>Jornal da Ci\u00eancia<\/i>, um e-mail para que um peri\u00f3dico de ampla circula\u00e7\u00e3o disponibilizasse algumas p\u00e1ginas sobre o assunto. Neste meio tempo, pouco foi feito para minimizar os freq\u00fcentes erros e problemas da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional, como adiante ser\u00e1 retomado. Os erros continuam sendo propagados, inclusive por peri\u00f3dicos especializados ou por peri\u00f3dicos mais amplos, mas j\u00e1 agraciados com o pr\u00eamio Jos\u00e9 Reis de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica oferecido pelo CNPq (Conselho Nacional de Pesquisas Cient\u00edficas e Tecnol\u00f3gicas).<\/p>\n<p>O Dr. Picazzio nos fala em seu artigo sobre os desafios do pesquisador cient\u00edfico, bem como de sua responsabilidade e da necessidade de difundir o conhecimento de modo acess\u00edvel ao grande p\u00fablico. De acordo com o Dr. Picazzio, \u2018o profissional de ci\u00eancia tem obriga\u00e7\u00e3o moral e social de ajudar a difundir a ci\u00eancia e a traduzir o discurso cient\u00edfico em discurso acess\u00edvel ao grande p\u00fablico\u2019, ao passo que ao profissional do jornalismo cabe \u2018estudar o assunto e consultar um especialista antes de escrever um texto\u2019, de modo que \u2018quanto mais desinformada uma pessoa estiver sobre o assunto que escreve, mais cuidado deve tomar ao escolher termos alternativos\u2019.<\/p>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 preocupante<\/strong><\/p>\n<p>Pois \u00e9 exatamente sobre isso que tenho escrito desde 2005. \u00c9 muito bom perceber que h\u00e1 mais pesquisadores interessados em divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de qualidade e que n\u00e3o acham que a populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia deva ficar exclusivamente na m\u00e3o de jornalistas. Em outros ensaios, eu j\u00e1 comentava sobre a responsabilidade dos cientistas para com as not\u00edcias veiculadas na m\u00eddia e sobre a necessidade de cuidados com o modo como a populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e9 feita, para evitar erros conceituais e para transmitir informa\u00e7\u00f5es importantes para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Realmente, o cientista tem obriga\u00e7\u00e3o moral e social de ajudar a difundir a ci\u00eancia, uma vez que a maior parte da verba disponibilizada para a pesquisa no Brasil \u00e9 de origem governamental, atrav\u00e9s de \u00f3rg\u00e3os de fomento como o CNPq (Conselho Nacional para o Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico) e as FAPs (Funda\u00e7\u00f5es de Amparo \u00e0 Pesquisa) estaduais. \u00c9 claro que a gera\u00e7\u00e3o de conhecimento possibilitada por estas a\u00e7\u00f5es em si j\u00e1 tem a sua import\u00e2ncia, seja a pesquisa aplicada ou de base. Entretanto, apesar dos grandes avan\u00e7os cient\u00edficos nas mais diversas \u00e1reas, a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da popula\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 preocupante. Se a escola, que deveria ser um dos melhores caminhos para a boa divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, anda com problemas, o que dizer da m\u00eddia, de onde boa parte da popula\u00e7\u00e3o obt\u00e9m informa\u00e7\u00f5es sobre ci\u00eancia em geral?<\/p>\n<p><strong>Corre\u00e7\u00e3o tardia<\/strong><\/p>\n<p>Isso deveria fazer com que cada vez mais pesquisadores se sentissem impelidos a contribuir para melhorar este quadro. No entanto, n\u00e3o \u00e9 o que parece estar acontecendo, tendo em vista a quantidade de erros conceituais e problemas encontrados na m\u00eddia impressa nacional. At\u00e9 onde o problema \u00e9 dos pesquisadores, uma vez que a maioria das not\u00edcias cient\u00edficas \u00e9 dada por jornalistas? Infelizmente esta pergunta eu s\u00f3 consigo responder com outra pergunta: quantas vezes voc\u00ea, como cientista, j\u00e1 leu ou ouviu algum termo incorreto na m\u00eddia e escreveu ou telefonou \u00e0 reda\u00e7\u00e3o para corrigir?<\/p>\n<p>Uma coisa que gosto de fazer \u00e9 ler a se\u00e7\u00e3o de cartas para ver manifesta\u00e7\u00f5es desta natureza. Confesso que n\u00e3o fa\u00e7o isso todos os dias, mas em algumas vezes que escrevi para apontar algum erro n\u00e3o tive resposta alguma do peri\u00f3dico. Na \u00faltima vez, alguns meses atr\u00e1s, fiz duas observa\u00e7\u00f5es quanto a uma not\u00edcia veiculada na Folha online. Alguns dias depois obtive a primeira resposta: uma de minhas observa\u00e7\u00f5es havia sido corrigida (o escritor\/tradutor do artigo havia escrito que o \u00e1cido graxo \u00f4mega 6 \u00e9 prejudicial ao organismo, talvez profetizando uma recente not\u00edcia ainda controversa); entretanto, para a segunda observa\u00e7\u00e3o eles n\u00e3o concordaram, justificando-se com o dicion\u00e1rio. Especificamente, eles traduziram o termo ingl\u00eas <i>fat acid<\/i> por \u2018\u00e1cido gorduroso\u2019, quando o correto \u00e9 \u2018\u00e1cido graxo\u2019. Depois de outro e-mail e passados v\u00e1rios dias, eles comentaram que fizeram a corre\u00e7\u00e3o. Infelizmente foi tarde demais, eu mesmo n\u00e3o encontrei mais o artigo depois disso. Houve uma demora muito grande na corre\u00e7\u00e3o. Quem leu j\u00e1 gravou a mensagem incorreta.<\/p>\n<p><strong>Diversidade de genoma<\/strong><\/p>\n<p>Devido a esta minha preocupa\u00e7\u00e3o com o uso correto dos termos \u00e9 que fiquei satisfeito ao ver o artigo do Dr. Picazzio na <i>Scientific American Brasil<\/i>, uma das mais importantes publica\u00e7\u00f5es de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de nosso pa\u00eds. Com este artigo, percebi que n\u00e3o sou o \u00fanico a me preocupar com a qualidade da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e em perceber que isto \u00e9 uma responsabilidade dos cientistas. Percebi tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 apenas na \u00e1rea biol\u00f3gica que os erros conceituais s\u00e3o propagados. Meu foco normalmente \u00e9 nos artigos de minha \u00e1rea \u2013 gen\u00e9tica e evolu\u00e7\u00e3o. Nesse aspecto, apesar de v\u00e1rios alertas, os erros continuam acontecendo.<\/p>\n<p>Em verdade seria ilus\u00e3o esperar que em pouco tempo tudo fosse ser resolvido com alguns ensaios de algu\u00e9m com pouca express\u00e3o. A mudan\u00e7a \u00e9 mais r\u00e1pida quando est\u00e1 envolvido algum cientista <i>superstar<\/i>, como a geneticista Mayana Zatz. Em artigo publicado na revista <i>Pesquisa Fapesp<\/i> do m\u00eas agosto, a geneticista, juntamente com a jornalista Cristiane Segatto, discute os erros e acertos da m\u00eddia na cobertura das c\u00e9lulas-tronco embrion\u00e1rias e destaca os exageros cometidos pela m\u00eddia, embora a pesquisadora sempre tivesse abertura para conter os problemas.<\/p>\n<p>Outro fato que chama a aten\u00e7\u00e3o para a publica\u00e7\u00e3o do artigo do Dr. Picazzio na <i>Scientific American Brasil<\/i> \u00e9 que a pr\u00f3pria revista n\u00e3o est\u00e1 livre de erros conceituais em seus artigos. Apenas como exemplo, \u00e9 poss\u00edvel citar o artigo \u2018Desejo de velocidade\u2019, por David Biello, na edi\u00e7\u00e3o de julho de 2008. O autor escreve: \u2018Mas outros estudos sobre altera\u00e7\u00f5es nos amino\u00e1cidos individuais de DNA \u2013 polimorfismos de nucleot\u00eddeo \u00fanico nas seq\u00fc\u00eancias de DNA, hapl\u00f3tipos \u2013 ou nas se\u00e7\u00f5es mais longas de c\u00f3digo gen\u00e9tico \u2013 varia\u00e7\u00e3o no n\u00famero de c\u00f3pias \u2013 concordam que as pessoas da \u00c1frica apresentam a maior diversidade em seu genoma.\u2019<\/p>\n<p><strong>C\u00f3digo gen\u00e9tico<\/strong><\/p>\n<p>Neste pequeno trecho, a cole\u00e7\u00e3o de erros beira ao grotesco. De um modo geral, o autor cita tr\u00eas tipos de marcadores moleculares que, embora possam usar m\u00e9todos diretos ou indiretos de an\u00e1lise, s\u00e3o todos baseados na seq\u00fc\u00eancia de nucleot\u00eddeos de trechos comparados entre diferentes indiv\u00edduos\/popula\u00e7\u00f5es. O primeiro erro crasso est\u00e1 no in\u00edcio da frase, quando o autor mistura DNA e prote\u00edna. Amino\u00e1cidos s\u00e3o os blocos construtores de prote\u00ednas, n\u00e3o do DNA. O DNA, por sua vez, \u00e9 um pol\u00edmero de nucleot\u00eddeos. Estes nucleot\u00eddeos podem ser de quatro tipos diferentes, dependendo de qual base nitrogenada est\u00e1 presente (adenina, timina, citosina e guanina) e s\u00e3o representadas pelas famosas letrinhas \u2013 ATCG, respectivamente, que aparecem quando se fala de seq\u00fcenciamento de DNA, que nada mais \u00e9 do que decifrar a ordem em que estas \u2018letras\u2019 aparecem em um determinado trecho do DNA. Os polimorfismos de nucleot\u00eddeo \u00fanico (do ingl\u00eas, SNP) citado pelo autor, s\u00e3o diferen\u00e7as que acontecem em uma \u00fanica posi\u00e7\u00e3o de um trecho de DNA, enquanto o restante do trecho se mant\u00e9m conservado.<\/p>\n<p>Outro erro est\u00e1 no uso incorreto do termo \u2018c\u00f3digo gen\u00e9tico\u2019. C\u00f3digo gen\u00e9tico \u00e9 o modo como uma seq\u00fc\u00eancia de nucleot\u00eddeos do DNA \u00e9 traduzida em seq\u00fc\u00eancia de amino\u00e1cidos na prote\u00edna, sendo que cada tr\u00eas nucleot\u00eddeos formam um c\u00f3don, que determina um amino\u00e1cido. Por exemplo, o c\u00f3don ATG significa o amino\u00e1cido metionina.<\/p>\n<p><strong>Uma sociedade mais justa<\/strong><\/p>\n<p>O autor usa o termo de modo equivocado, como v\u00e1rios outros autores de textos de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica j\u00e1 fizeram, conforme abordei em outros ensaios. Na verdade, o autor faz refer\u00eancia a seq\u00fc\u00eancias de nucleot\u00eddeos repetidas no genoma. Estas seq\u00fc\u00eancias podem ser trechos pequenos (microssat\u00e9lites), m\u00e9dios (minissat\u00e9lites) ou grandes (sat\u00e9lites) de DNA, e diferentes indiv\u00edduos\/popula\u00e7\u00f5es podem apresentar varia\u00e7\u00f5es no n\u00famero de c\u00f3pias destas repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O uso incorreto de termos cient\u00edficos \u00e9 um dos principais problemas da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional. Isso confunde o leitor e n\u00e3o contribui para a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade cultural e cient\u00edfica em nosso pa\u00eds. Os conceitos b\u00e1sicos precisam estar corretos e as analogias precisam ser mais bem formuladas para evitar m\u00e1s interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para melhorar este quadro, se faz necess\u00e1rio que os peri\u00f3dicos utilizem mais os servi\u00e7os de consultores especialistas em determinadas \u00e1reas, que os jornalistas sejam mais bem preparados para tratar de assuntos espec\u00edficos de ci\u00eancia e\/ou que os cientistas estejam mais engajados na populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Nenhuma destas possibilidades \u00e9 f\u00e1cil ou barata. No entanto, em se tratando de educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 um dever de todas as classes envolvidas fornecerem educa\u00e7\u00e3o de primeira qualidade, visando a uma sociedade mais justa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um artigo publicado no\u00a0Observat\u00f3rio da Imprensa, em 28\/10\/2008. 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