{"id":2070,"date":"2015-09-16T21:37:05","date_gmt":"2015-09-17T00:37:05","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2070"},"modified":"2015-09-16T21:37:05","modified_gmt":"2015-09-17T00:37:05","slug":"genes-evolucao-e-desenvolvimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2070","title":{"rendered":"Genes, evolu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento"},"content":{"rendered":"<p>Este \u00e9 o segundo texto em resposta a cartas enviadas ao Jornal da Ci\u00eancia Email em defesa do Design Inteligente. <a href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/edicoes\/?url=http:\/\/jcnoticias.jornaldaciencia.org.br\/genes-evolucao-e-desenvolvimento-artigo-de-rubens-pazza\/\" target=\"_blank\">O original foi publicado\u00a0no dia 13 de maio de 2005<\/a>.\u00a0Neste texto eu abordo algumas quest\u00f5es acerca da evolu\u00e7\u00e3o utilizando genes do desenvolvimento como evid\u00eancia, em resposta aos frequentes espantalhos escritos por criacionistas e neocriacionistas.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Como membro da Sociedade Brasileira de Gen\u00e9tica gostaria de parabenizar a diretoria por pronunciar-se em rela\u00e7\u00e3o ao debate criacionismo x evolu\u00e7\u00e3o.O posicionamento defendido pela diretoria serve de exemplo para todas as sociedades cient\u00edficas brasileiras, que devem cumprir um papel social na tentativa de impedir que movimentos pseudocient\u00edficos e anticient\u00edficos espalhem-se na popula\u00e7\u00e3o. O Sr. En\u00e9zio de Almeida em seu artigo publicado no dia 11 de Maio no JC e-mail levanta alguns pontos interessantes para um debate, e ao mesmo tempo segue na mesma linha \u0091argumentativa\u0092 dos movimentos pseudocient\u00edficos antievolucionismo. Eu gostaria, ent\u00e3o, de tentar discutir alguns pontos.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a classifica\u00e7\u00e3o dos genes conforme o texto n\u00e3o segue um padr\u00e3o convencional. H\u00e1 genes de manuten\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o ativos em praticamente todas as c\u00e9lulas de um organismo eucari\u00f3tico, e h\u00e1 genes preferencialmente ativos em determinados tecidos ou \u00e9pocas da vida de um organismo.Alguns genes codificantes de prote\u00ednas do metabolismo, por exemplo, n\u00e3o necessariamente s\u00e3o genes de manuten\u00e7\u00e3o. Em algumas etnias (preferencialmente), por exemplo, sabe-se que a lactase \u00e9 presente apenas na inf\u00e2ncia, tornando algumas pessoas intolerantes \u00e0 lactose quando mais velhos. Entretanto, esta n\u00e3o \u00e9 essencialmente a principal quest\u00e3o do texto.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante que o autor tenha se focalizado nos genes do desenvolvimento. Ao contr\u00e1rio do pressuposto pelo texto, os genes do desenvolvimento t\u00eam sido cada vez mais bem estudados e os resultados de tais estudos est\u00e3o dispon\u00edveis em revistas como Nature, PNAS, Cell, Developmental Biology, entre outras. Em 1996, Holland e Garcia-Fernandez publicaram uma revis\u00e3o no peri\u00f3dico Developmental Biology sobre os genes <em>Hox<\/em> e a evolu\u00e7\u00e3o dos cordados. Estes genes s\u00e3o particularmente interessantes para estudos do desenvolvimento. Um pouco mais recentemente, em 2001, William R. Jeffery publicou uma revis\u00e3o sobre o uso de um peixe de caverna do g\u00eanero <em>Astyanax<\/em> como modelo de estudo para biologia evolutiva do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Segundo os estudos nesta \u00e1rea, os organismos desenvolveram diferentes mecanismos para gerar novidade no desenvolvimento, utilizando um mesmo conjunto inicial de genes, como duplica\u00e7\u00f5es ou mudan\u00e7as na express\u00e3o g\u00eanica.\u00c9 muito interessante como, depois de um per\u00edodo de descr\u00e9dito, a biologia do desenvolvimento tem fornecido suportes t\u00e3o fortes para a biologia evolutiva que estamos prestes a ter uma nova s\u00edntese evolutiva. Al\u00e9m disso, especia\u00e7\u00e3o n\u00e3o requer mudan\u00e7as dr\u00e1sticas no plano corporal de um organismo.<\/p>\n<p>Macroevolu\u00e7\u00e3o, em geral, se refere \u00e0 origem de esp\u00e9cies novas (embora o uso dos termos micro e macroevolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o sejam amplamente aceitos, e como outros conceitos em biologia evolutiva s\u00e3o meramente arbitr\u00e1rios, uma vez que os organismos vivos n\u00e3o seguem delimita\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas cunhadas por cientistas). N\u00e3o necessariamente indica que h\u00e1 grandes modifica\u00e7\u00f5es entre uma esp\u00e9cie antiga e sua descendente. Exemplos de especia\u00e7\u00e3o s\u00e3o claros entre peixes, invertebrados e, principalmente, entre plantas, al\u00e9m de outros organismos. Esp\u00e9cies em anel, como a salamandra <em>Ensatina<\/em>, s\u00e3o maravilhosos exemplos de especia\u00e7\u00e3o em tempo real. A quest\u00e3o principal \u00e9 que a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo algor\u00edtmico, onde uma determinada mudan\u00e7a (muta\u00e7\u00e3o) pode ser relevante para novas mudan\u00e7as. A sele\u00e7\u00e3o natural, bem como outros processos evolutivos, permite que algumas varia\u00e7\u00f5es sejam favorecidas enquanto outras n\u00e3o. Determinados genes t\u00eam taxas de muta\u00e7\u00e3o diferentes de outros e isso faz com que alguns grupos tenham taxas de evolu\u00e7\u00e3o diferentes de outros.<\/p>\n<p>Quando se fala em evolu\u00e7\u00e3o (talvez no sentido que os criacionistas acham que \u00e9 macroevolu\u00e7\u00e3o), \u00e9 necess\u00e1rio compreender que as diferen\u00e7as entre peixes e anf\u00edbios n\u00e3o eram t\u00e3o grandes quando o primeiro ancestral de tetr\u00e1podo saiu da \u00e1gua (e ainda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande se lembrarmos que alguns genes do desenvolvimento, como o gene <em>Dashound<\/em> que promove pernas curtas em c\u00e3es est\u00e1 presente nos peixes, que n\u00e3o t\u00eam pernas). Em outras palavras, n\u00e3o \u00e9 coerente olhar para uma grande \u00e1rvore frondosa e dizer que \u00e9 imposs\u00edvel que um grande e diversificado galho tenha rela\u00e7\u00e3o com outro igualmente desenvolvido. \u00c9 preciso lembrar que ambos vieram da mesma semente e que no in\u00edcio n\u00e3o passavam de dois cotil\u00e9dones, partindo de um mesmo eixo.<\/p>\n<p>O texto afirma que nenhum bi\u00f3logo evolutivo prop\u00f4s \u0091termos te\u00f3ricos aceit\u00e1veis\u0092 para a evolu\u00e7\u00e3o de olho e asas, por exemplo. Tudo depende do que eles chamam de termos aceit\u00e1veis. H\u00e1 exemplos claros na natureza que demonstram como uma asa pode ter surgido, mas isso n\u00e3o parece ser \u0091aceit\u00e1vel\u0092 pelos criacionistas. Tamb\u00e9m n\u00e3o deve ser \u0091aceit\u00e1vel\u0092 a estimativa do tempo necess\u00e1rio para que um olho tipo c\u00e2mara evolua, que Nilsson e Pelger publicaram em 1994 no peri\u00f3dico Proceedings of the Royal Society of London. O problema \u00e9 que simplesmente dizer que n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel pelos criacionistas n\u00e3o torna um trabalho cient\u00edfico inv\u00e1lido. Nenhuma teoria ser\u00e1 derrubada por argumentos do tipo: \u0091n\u00e3o concordo\u0092. \u00c9 necess\u00e1rio que se mostre evid\u00eancias independentes, que tornem a hip\u00f3tese incorreta. \u00c9 assim que se faz ci\u00eancia. Ao contr\u00e1rio do que os antievolucionistas afirmam, quanto mais se exp\u00f5em os fatos, mais s\u00f3lida se torna a teoria evolutiva.<\/p>\n<p>Deixando de lado os vieses interpretativos que o texto traz com cita\u00e7\u00f5es de alguns autores evolucionistas, \u00e9 necess\u00e1rio fazer algumas perguntas. O criacionismo \u0091cient\u00edfico\u0092 e o neocriacionismo (o movimento do Design Inteligente), est\u00e3o baseados em que evid\u00eancias? Ao que parece, a \u00fanica argumenta\u00e7\u00e3o destes movimentos \u00e9 que a evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode existir, mas n\u00e3o vemos nenhuma evid\u00eancia contr\u00e1ria! Onde est\u00e3o os f\u00f3sseis de coelho do pr\u00e9-Cambriano? Ou por que n\u00e3o h\u00e1 nenhum P\u00e9gasus vivente nem f\u00f3ssil? Por que \u00e9 que todas as evid\u00eancias apontam para um caminho evolutivo? \u00c9 estranho afirmarem que rejeitam \u0091as teses que n\u00e3o se sustentam pelas evid\u00eancias\u0092, uma vez que as evid\u00eancias apontam para um caminho evolutivo. \u00c9 isso que os artigos das revistas cient\u00edficas apontam: evid\u00eancias e mais evid\u00eancias de evolu\u00e7\u00e3o. A teoria evolutiva est\u00e1 longe, mas muito longe de ser uma teoria em crise, como afirmam.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que afirmam, o movimento do Design Inteligente e o criacionismo \u0091cient\u00edfico\u0092, s\u00f3 observam as evid\u00eancias que lhes conv\u00e9m, sempre utilizando um vi\u00e9s interpretativo para ajustar as evid\u00eancias \u00e0 sua teoria. Isto, definitivamente, n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia. Por estas e outra raz\u00f5es, apoio completamente a Sociedade Brasileira de Gen\u00e9tica. Nenhum modelo criacionista \u00e9 uma alternativa \u00e0 teoria evolutiva, uma vez que Evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, que modelo criacionista estaria correto? Por que o modelo crist\u00e3o deve ser levado em considera\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s do modelo grego ou chin\u00eas? Mitos de cria\u00e7\u00e3o existem aos milhares e todos eles refletem os conhecimentos da \u00e9poca, a no\u00e7\u00e3o de mundo de cada povo. Hoje temos ferramentas para verificar certas afirma\u00e7\u00f5es. A ci\u00eancia n\u00e3o explicou tudo ainda, e \u00e9 uma bobagem pensar que j\u00e1 deveria. Certamente muita coisa precisa ser estudada, mas nada indica que o modelo evolutivo at\u00e9 ent\u00e3o observado na natureza seja diferente. Mesmo se for, os criacionistas e neocriacionistas n\u00e3o t\u00eam evid\u00eancias para demonstrar que suas mitologias s\u00e3o verdadeiras.<\/p>\n<p>Uma cria\u00e7\u00e3o complexa depende de um criador ainda mais complexo, que deveria ser criado por um criador ainda mais complexo e assim por diante.Aguardemos, ent\u00e3o, as evid\u00eancias de tal criador, tenha ele diploma de arquiteto ou n\u00e3o. Lembrando que imensos telesc\u00f3pios t\u00eam varrido nosso universo com raios ultravioleta, r\u00e1dio e luz vis\u00edvel\u2026 At\u00e9 agora nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este \u00e9 o segundo texto em resposta a cartas enviadas ao Jornal da Ci\u00eancia Email em defesa do Design Inteligente. 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