{"id":2068,"date":"2015-09-14T21:29:39","date_gmt":"2015-09-15T00:29:39","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2068"},"modified":"2015-09-14T21:29:39","modified_gmt":"2015-09-15T00:29:39","slug":"aproveitadores-de-deslizes-no-jornalismo-cientifico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2068","title":{"rendered":"Aproveitadores de deslizes no jornalismo cient\u00edfico"},"content":{"rendered":"<p>Este texto foi originalmente publicado no Jornal da Ci\u00eancia E-Mail de 10\/05\/2005 (o reposit\u00f3rio original aparentemente n\u00e3o existe mais ou teve links quebrados), em resposta a uma onda de artigos sobre o Design Inteligente que circulavam pelo jornal na \u00e9poca. \u00a0\u00c9 o primeiro texto que escrevi sobre os erros no jornalismo cient\u00edfico nacional.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos t\u00eam proporcionado oportunidades \u00edmpares para que a popula\u00e7\u00e3o obtenha informa\u00e7\u00e3o.Desde a inven\u00e7\u00e3o da imprensa, r\u00e1dio, televis\u00e3o, chegando at\u00e9 os modernos meios digitais via Internet e informa\u00e7\u00e3o pelo celular, certas coisas permanecem: pessoas procurando informa\u00e7\u00e3o e pessoas repassando informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o importa por qual meio. De modo geral, as pessoas confiam muito nas informa\u00e7\u00f5es que obt\u00eam atrav\u00e9s dos profissionais da comunica\u00e7\u00e3o. Principalmente em se tratando de temas pouco compreendidos, como a ci\u00eancia em geral.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 imperativo que as empresas jornal\u00edsticas assumam a responsabilidade de ter sempre pessoal bem preparado para garantir informa\u00e7\u00e3o de qualidade aos espectadores. Infelizmente isso n\u00e3o \u00e9 o que sempre acontece.<\/p>\n<p>Recentemente, foi publicada a seq\u00fc\u00eancia completa de nucleot\u00eddeos do cromossomo X humano. Assustadoramente, um dos principais jornais do Brasil afirma, em rede nacional, que \u2018os cientistas decifraram o c\u00f3digo gen\u00e9tico do cromossomo X\u2019. C\u00f3digo gen\u00e9tico \u00e9 a maneira pela qual a informa\u00e7\u00e3o contida no DNA na forma de seq\u00fc\u00eancias de nucleot\u00eddeos \u00e9 traduzida para prote\u00ednas como seq\u00fc\u00eancias de amino\u00e1cidos. Parece uma coisa tola, mas faz muita diferen\u00e7a. O c\u00f3digo gen\u00e9tico \u00e9 praticamente universal, sendo o mesmo para quase todas as esp\u00e9cies da Terra. Seq\u00fc\u00eancias de nucleot\u00eddeos no DNA variam.<\/p>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o de 4 de Maio de 2005 do \u2018JC e-mail\u2019, na mat\u00e9ria extra\u00edda do jornal \u2018O Estado de SP\u2019 intitulada \u2018Maiores diferen\u00e7as entre n\u00f3s e os chimpanz\u00e9s n\u00e3o est\u00e3o no c\u00e9rebro\u2019, o autor comenta: \u2018Os pesquisadores compararam 13.731 genes em busca de ind\u00edcios de uma \u2018sele\u00e7\u00e3o positiva\u2019, ou seja, onde ocorreu a muta\u00e7\u00e3o em resposta a uma press\u00e3o ambiental para facilitar a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie\u2019. Uma frase como esta pode indicar \u00e0s pessoas que muta\u00e7\u00f5es acontecem para solucionar problemas do meio ambiente, numa vis\u00e3o lamarkista, sem nenhum fundamento cient\u00edfico. O que houve foi que muta\u00e7\u00f5es que possibilitaram mais adequada adapta\u00e7\u00e3o ao ambiente foram selecionadas positivamente, ou seja, aumentaram no fundo g\u00eanico da popula\u00e7\u00e3o. De fato, embora tenha um tratamento estat\u00edstico ainda debatido, os dados dos pesquisadores sugerem que genes relacionados com supress\u00e3o de tumores, apoptose e fatores antivirais, tiveram muta\u00e7\u00f5es positivas, que foram selecionadas favoravelmente durante a evolu\u00e7\u00e3o dos humanos.<\/p>\n<p>Tais distor\u00e7\u00f5es cometidas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o em massa fornecem combust\u00edvel para que alguns movimentos pseudocient\u00edficos se fortale\u00e7am. Uma das grandes vantagens das pseudoci\u00eancias em geral \u00e9 seu grande apelo p\u00fablico. \u00c9 muito f\u00e1cil fazer as massas acreditarem que uma hist\u00f3ria \u00e9 verdadeira. Basta um pouco de aplica\u00e7\u00e3o imediata, uma pitada de erudi\u00e7\u00e3o, uma pequena dose de apelo de autoridade e alguns litros de hipocrisia. Tudo isto, sendo preparado por uma figura de confian\u00e7a na sociedade, \u00e9 a f\u00f3rmula perfeita para vender curas milagrosas, mitos por verdades e muito mais.<\/p>\n<p>\u00c9 desta forma que est\u00e1 crescendo no Brasil o movimento do \u2018Design Inteligente\u2019 (DI), autoproclamada alternativa \u00e0 teoria evolutiva. Travestida de roupagem \u2018cient\u00edfica\u2019, o DI repousa no insistente argumento de que a complexidade vista na natureza n\u00e3o pode ser obra do acaso, mas de um arquiteto inteligente.<\/p>\n<p>Este movimento, que parece tomar for\u00e7a hoje, no Brasil, est\u00e1 crescendo em todo o mundo, sendo not\u00edcia de capa da revista \u2018Nature\u2019 recentemente. Conforme o editor da revista alerta, \u00e9 importante que este movimento n\u00e3o seja ignorado, e eu insisto, que seja esclarecido. O Dr. Julio Pieczarka j\u00e1 escreveu neste espa\u00e7o sobre o assunto, e seu texto merece ser destacado (<a class=\"bbc_link\" href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/Detalhe.jsp?id=25540\" target=\"_blank\">http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/Detalhe.jsp?id=25540<\/a>).<\/p>\n<p>O DI n\u00e3o tem uma base cient\u00edfica s\u00f3lida. Sequer tem uma base cient\u00edfica. Suas id\u00e9ias baseiam-se num vi\u00e9s interpretativo de algumas descobertas isoladas da ci\u00eancia. O \u00fanico artigo publicado em peri\u00f3dico cient\u00edfico indexado n\u00e3o merece mais destaques que o artigo do falecido Dr. Jacques Benveniste na revista Nature, sobre a mem\u00f3ria da \u00e1gua, que jamais foi corroborada. O DI n\u00e3o pode ser testado, n\u00e3o pode ser falseado, n\u00e3o pode ser corroborado. Neste sentido, est\u00e1 longe de ser ci\u00eancia, nos termos modernos da filosofia da ci\u00eancia de Karl Popper. Partindo do princ\u00edpio de que existe complexidade na natureza, e que, segundo eles, a teoria evolutiva n\u00e3o pode explic\u00e1-la, conseguem a brilhante conclus\u00e3o de que tal complexidade foi criada por um arquiteto inteligente.<\/p>\n<p>Embora o termo \u2018criada\u2019 n\u00e3o seja bem recebido pelos adeptos do DI, suas explica\u00e7\u00f5es n\u00e3o sugerem algo diferente. Assim, longe de ser uma teoria cient\u00edfica alternativa \u00e0 teoria evolutiva (esta sim, uma teoria cient\u00edfica, podendo ter suas teses corroboradas ou falseadas por estudos independentes), o DI pode ser considerado como argumento das lacunas, encaixando arquitetura inteligente em qualquer fato ainda n\u00e3o esclarecido pela ci\u00eancia evolutiva.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma insist\u00eancia intrigante no combate de uma evolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe, um espantalho, criado para tornar evidentes aos olhos leigos o que chamam \u2018lacunas\u2019 da evolu\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o convenientemente tapadas pelo arquiteto inteligente. A no\u00e7\u00e3o de que a evolu\u00e7\u00e3o apenas procede ao acaso, e que o acaso n\u00e3o pode produzir a complexidade vista na natureza, n\u00e3o apenas \u00e9 um espantalho como tamb\u00e9m est\u00e1 equivocada. Modelos computadorizados permitem demonstrar que complexidade pode ser gerada ao acaso. \u00c9 interessante como o algoritmo evolutivo \u00e9 convenientemente esquecido pelos adeptos do DI.<\/p>\n<p>Mais f\u00e1cil que chutar cavalo morto \u00e9 bater em um cavalo inexistente. Como toda pseudoci\u00eancia, o DI utiliza meios s\u00f3rdidos de manipula\u00e7\u00e3o de dados e joga com o analfabetismo cient\u00edfico da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As id\u00e9ias revolucion\u00e1rias de Darwin est\u00e3o prestes a comemorar 150 anos. De l\u00e1 para c\u00e1, muito foi descoberto, id\u00e9ias foram corroboradas por estudos mais abrangentes e sofisticados; outras, ap\u00f3s per\u00edodo de ridiculariza\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo retomadas; passamos por uma s\u00edntese quando os mecanismos gen\u00e9ticos de heran\u00e7a foram sendo esclarecidos e rumamos para uma nova s\u00edntese, com a melhor compreens\u00e3o da biologia do desenvolvimento. Enquanto isso, as id\u00e9ias mitol\u00f3gicas sobre a hist\u00f3ria natural da Terra permanecem muito semelhantes. Algu\u00e9m ou algo surgido do nada \u00e9 respons\u00e1vel por criar tudo (interessantemente, os adeptos destes mitos criticam os cientistas por dizerem, segundo eles, que tudo veio do nada&#8230; Outra fal\u00e1cia do espantalho, al\u00e9m de um belo tiro no p\u00e9) da maneira como vemos hoje.<\/p>\n<p>O DI n\u00e3o passa de uma renova\u00e7\u00e3o do velho criacionismo, com um jeito aparentemente secular para se tornar atraente aos olhos dos mais c\u00e9ticos. Por mais que insistam em dizer que n\u00e3o s\u00e3o criacionistas, n\u00e3o conseguem bons argumentos sobre o \u2018arquiteto inteligente\u2019. A diferen\u00e7a entre os mitos de cria\u00e7\u00e3o antigos e este novo \u00e9 o diploma conferido ao criador. Desta forma, o DI n\u00e3o passa de um neocriacionismo, completamente recheado de elementos m\u00edticos n\u00e3o comprov\u00e1veis, mas mascarado de ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Como outras formas de pseudoci\u00eancia, o DI deve ser combatido. Como o saudoso bi\u00f3logo e astr\u00f4nomo Carl Sagan costumava dizer, m\u00e1 ci\u00eancia se combate com boa ci\u00eancia. E boa ci\u00eancia n\u00e3o falta nos peri\u00f3dicos cient\u00edficos nacionais e internacionais, repletos de exemplos e evid\u00eancias de evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 faltando \u00e9 levar estas informa\u00e7\u00f5es ao p\u00fablico, atrav\u00e9s de uma divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica bem conduzida, sem vulgariza\u00e7\u00e3o ou super-simplifica\u00e7\u00f5es, e o mais importante, sem erros interpretativos. Desta forma, \u00e9 importante que a comunidade cient\u00edfica esteja atenta para corrigir prontamente erros como estes citados.<\/p>\n<p>Para a popula\u00e7\u00e3o em geral \u00e9 dif\u00edcil discernir o que \u00e9 certo ou errado em ci\u00eancia, e \u00e9 desta maneira que os pseudocientistas aproveitam para vender suas teorias m\u00edticas. Deslizes, como o observado no referido artigo, podem comprometer todo um conjunto de a\u00e7\u00f5es construtivas que buscam informar corretamente a popula\u00e7\u00e3o, trabalho exemplarmente executado por jornalistas s\u00e9rios e divulgadores da ci\u00eancia preocupados com o compromisso social de ser um educador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto foi originalmente publicado no Jornal da Ci\u00eancia E-Mail de 10\/05\/2005 (o reposit\u00f3rio original aparentemente n\u00e3o existe mais ou teve links quebrados), em&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[202],"tags":[253,26,129],"class_list":["post-2068","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-evolucao-2","tag-desenho-inteligente","tag-divulgacao-cientifica","tag-popularizacao-da-ciencia"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2068"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2068\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2069,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2068\/revisions\/2069"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}