{"id":2038,"date":"2015-09-02T21:35:32","date_gmt":"2015-09-03T00:35:32","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2038"},"modified":"2015-09-02T21:35:32","modified_gmt":"2015-09-03T00:35:32","slug":"da-analogia-imperfeita-as-distorcoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=2038","title":{"rendered":"Da analogia imperfeita \u00e0s distor\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Este texto foi publicado no <a href=\"http:\/\/observatoriodaimprensa.com.br\/ciencia\/da-analogia-imperfeita-as-distorcoes\/\" target=\"_blank\">Observat\u00f3rio da Imprensa<\/a>, em\u00a019\/09\/2006 na edi\u00e7\u00e3o 399.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>\u201cA mim ensinou-me tudo\u201d (Fernando Pessoa); \u201cPapai vai lhe ninar\u201d (Dorival Caymmi); \u201cVoc\u00ea foste ou n\u00e3o foste?\u201d(Chico Buarque). Os trechos citados cont\u00eam erros de portugu\u00eas propositais, melhorando a sonoridade dos textos e a clareza das id\u00e9ias dos autores. No entanto, tais erros propositais s\u00e3o considerados \u201clicen\u00e7as po\u00e9ticas\u201d, n\u00e3o erros, e s\u00e3o bastante utilizados em poesias e m\u00fasicas. Tais erros, embora firam a norma culta, n\u00e3o dificultam a compreens\u00e3o do texto, pelo contr\u00e1rio: em muitos casos facilitam sua compreens\u00e3o. \u00c9 fato que atualmente \u00e9 complicado identificar o que \u00e9 licen\u00e7a po\u00e9tica e o que \u00e9 falta de cultura e desconhecimento da l\u00edngua portuguesa, como observado em letras de v\u00e1rias m\u00fasicas da moda.<\/p>\n<p>Utilizando este artif\u00edcio, podemos identificar na literatura de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica muitas \u201clicen\u00e7as cient\u00edficas\u201d. Explicar como a ci\u00eancia funciona a leigos realmente n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. \u00c9 comum que cientistas divulgadores se utilizem de analogias imperfeitas para demonstrar o que querem explicar, como Richard Dawkins costuma fazer muito bem, especialmente em sua analogia dos genes com uma biblioteca vasta em volumes (em <i>O gene ego\u00edsta<\/i>). Na maioria destes casos, as analogias e outras licen\u00e7as cient\u00edficas s\u00e3o muito produtivas em sua finalidade. No entanto, seria interessante uma discuss\u00e3o sobre outros tipos de licen\u00e7as cient\u00edficas. H\u00e1 um constante uso de termos que, embora pare\u00e7am facilitar o entendimento da popula\u00e7\u00e3o em geral, podem confundir ainda mais, especialmente quando tais pessoas buscam mais esclarecimentos sobre o assunto. Em outros casos, os termos utilizados nos textos fazem alus\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es que distorcem completamente o sentido da not\u00edcia cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Podemos analisar alguns exemplos. O estudo do genoma mitocondrial de popula\u00e7\u00f5es humanas ao redor do mundo permitiu estimar o ancestral comum mais recente entre a maioria dos humanos viventes. Os cientistas, por algum motivo, a chamaram de \u201cEva mitocondrial\u201d. N\u00e3o demorou muito para que religiosos usassem a not\u00edcia como prova cient\u00edfica da exist\u00eancia da Eva b\u00edblica. Ou seja, a tentativa de popularizar uma not\u00edcia cient\u00edfica com uma licen\u00e7a cient\u00edfica, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma evid\u00eancia de que tal ancestral comum realmente seja a Eva b\u00edblica, serviu como arma contra a pr\u00f3pria ci\u00eancia.<\/p>\n<p><b>Erro de c\u00f3digo<\/b><\/p>\n<p>Certamente discuss\u00f5es de bastidores subseq\u00fcentes podem ter esclarecido a quest\u00e3o; no entanto, para uma pessoa que est\u00e1 alheia aos bastidores da discuss\u00e3o cient\u00edfica, a Eva mitocondrial pode muito bem ser a Eva b\u00edblica. Um analogia b\u00edblica tamb\u00e9m foi feita em rela\u00e7\u00e3o ao fato de uma determinada esp\u00e9cie que antes era considerada extinta ser encontrada com vida na natureza \u2013 efeito L\u00e1zaro. Embora menos pol\u00eamica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o religi\u00e3o\/ci\u00eancia, este termo amplamente empregado inclusive em meios acad\u00eamicos \u00e9 equivocado, pois n\u00e3o encontrar uma determinada esp\u00e9cie na natureza n\u00e3o significa que ela n\u00e3o exista. O efeito realmente foi o de uma melhoria nas verbas que permitiram ampliar os estudos.<\/p>\n<p>Para o p\u00fablico em geral, tal termo pode induzir \u00e0 id\u00e9ia de que a esp\u00e9cie estava extinta e, de repente, voltou a aparecer ou tenha sido recriada. \u00c9 claro que se pode dizer que o L\u00e1zaro citado na <i>B\u00edblia<\/i> poderia n\u00e3o estar morto, mas aparentemente morto, como as esp\u00e9cies que poderiam estar aparentemente extintas. Infelizmente, este n\u00e3o \u00e9 o pensamento da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o ocidental, o que certamente gera confus\u00e3o. A \u201clicen\u00e7a cient\u00edfica\u201d normalmente n\u00e3o explica, apenas confunde. Ainda, na paleontologia, temos a freq\u00fcente express\u00e3o \u201cf\u00f3ssil vivo\u201d. Como pode existir um f\u00f3ssil vivo?<\/p>\n<p>Outra express\u00e3o que freq\u00fcentemente aparece no notici\u00e1rio \u00e9 que os \u201ccientistas descobriram o c\u00f3digo gen\u00e9tico\u201d de determinada esp\u00e9cie. Na realidade, o que eles queriam dizer \u00e9 que os cientistas descobriram a seq\u00fc\u00eancia de nucleot\u00eddeos do DNA de uma esp\u00e9cie. Por mais dif\u00edcil que possa ser dar uma not\u00edcia como esta, a express\u00e3o \u201cc\u00f3digo gen\u00e9tico\u201d jamais deveria ser empregada. O c\u00f3digo gen\u00e9tico \u00e9 um mecanismo, um tipo de dicion\u00e1rio (usando licen\u00e7a cient\u00edfica), que informa de que maneira uma seq\u00fc\u00eancia de nucleot\u00eddeos de uma mol\u00e9cula de RNA determina a seq\u00fc\u00eancia de amino\u00e1cidos da prote\u00edna que ele produz. Por acaso algu\u00e9m diz que, na intercepta\u00e7\u00e3o de uma mensagem de Cuba pelo governo norte-americano, por exemplo, \u201cos norte-americanos identificaram o c\u00f3digo Morse que vinha de Cuba\u201d?<\/p>\n<p><b>Engajamento e preparo<\/b><\/p>\n<p>A gen\u00e9tica \u00e9 uma \u00e1rea cheia de licen\u00e7as cient\u00edficas como esta, talvez por ser uma \u00e1rea de dif\u00edcil compreens\u00e3o por sua complexidade. Um outro exemplo comum \u00e9 encontrar o termo \u201ccarga gen\u00e9tica\u201d aplicado como sin\u00f4nimo de genoma. Carga gen\u00e9tica \u00e9 uma medida dos alelos delet\u00e9rios para o organismo, que significa literalmente uma carga, um peso, algo que um organismo pode suportar at\u00e9 certo ponto. Genoma \u00e9 um termo mais adequado para se referir ao conte\u00fado gen\u00e9tico de um organismo. \u00c9 um termo bastante conhecido, n\u00e3o h\u00e1 motivos para n\u00e3o utiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Enquanto estas licen\u00e7as cient\u00edficas v\u00e3o aumentando em varia\u00e7\u00e3o e quantidade na m\u00eddia em geral, a popula\u00e7\u00e3o em geral pode ser prejudicada. Certamente, em muitos casos a pessoa n\u00e3o est\u00e1 interessada em se o termo \u00e9 certo ou nem quer ter mais informa\u00e7\u00f5es sobre um assunto. Basta este m\u00ednimo de informa\u00e7\u00e3o. Entretanto, um n\u00famero menor de pessoas pode estar interessado. Como o objetivo do jornalismo \u00e9 o de levar a informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 esperado que este papel seja desempenhado com o m\u00e1ximo de acuidade. As pessoas respeitam o que l\u00eaem ou ouvem no notici\u00e1rio. A m\u00eddia \u00e9 formadora de opini\u00e3o. Como podemos pensar em um debate s\u00e9rio na sociedade sobre assuntos pol\u00eamicos, como o uso terap\u00eautico de c\u00e9lulas-tronco, por exemplo, se as pessoas em geral desconhecem ou confundem o assunto?<\/p>\n<p>O que precisamos \u00e9 de cientistas mais engajados na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e jornalistas mais bem preparados. Certamente a linguagem dos textos de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica deve atingir todas as camadas populacionais, mas \u00e9 preciso ter muito cuidado em n\u00e3o vulgarizar, n\u00e3o deturpar o fato cient\u00edfico. Mais do que isso, a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica deve instigar a pessoa a buscar mais, aprender mais, conhecer mais. Um excesso de vulgariza\u00e7\u00e3o leva \u00e0 conforma\u00e7\u00e3o com o material pronto, \u00fatil muitas vezes mas que, definitivamente, n\u00e3o instiga o leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto foi publicado no Observat\u00f3rio da Imprensa, em\u00a019\/09\/2006 na edi\u00e7\u00e3o 399. &#8212;&#8212;- \u201cA mim ensinou-me tudo\u201d (Fernando Pessoa); \u201cPapai vai lhe ninar\u201d (Dorival&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[6],"tags":[251,238,129],"class_list":["post-2038","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-erros-conceituais","tag-jornalismo-cientifico","tag-popularizacao-da-ciencia"],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2038","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2038"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2038\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2039,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2038\/revisions\/2039"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}