{"id":1789,"date":"2015-04-06T23:10:13","date_gmt":"2015-04-07T02:10:13","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=1789"},"modified":"2015-04-08T10:18:03","modified_gmt":"2015-04-08T13:18:03","slug":"falar-palavrao-no-podcast-pode","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=1789","title":{"rendered":"Falar palavr\u00e3o no podcast, pode?"},"content":{"rendered":"<p>Acompanhei de longe uma discuss\u00e3o hoje no Twitter sobre o uso de palavr\u00f5es nos Podcasts de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, at\u00e9 o momento em que a <a href=\"https:\/\/twitter.com\/sibelefausto\/status\/585232638039957504\" target=\"_blank\">Sibele Fausto<\/a> pediu a minha opini\u00e3o. Achei complicado responder em 140 caracteres (bem menos, na verdade, pois muita gente estava participando da discuss\u00e3o e citada nas mensagens) e resolvi escrever algo aqui, mesmo que rapidamente.<!--more--><\/p>\n<p>Vou arriscar uns palpites como educador, professor e podcaster. Como eu comentei rapidamente no Twitter, longe de mim dar veredito.<\/p>\n<p>Eu falo palavr\u00e3o. Muitas vezes por dia. Mais do que eu gostaria de falar. E como fica com a fam\u00edlia, laborat\u00f3rio e em sala de aula?<\/p>\n<p>Temos\u00a0duas filhas. A mais velha tem sete anos e a mais nova vai fazer dois. Como educador, sempre procurei evitar os palavr\u00f5es em casa. N\u00e3o acho bonito crian\u00e7as falando palavr\u00e3o e nunca quis que nossa filha falasse. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, ela entendeu desde cedo que h\u00e1 palavras que crian\u00e7as n\u00e3o podem falar, as adultos falam. Um dia ela nos disse &#8220;crian\u00e7a n\u00e3o pode falar pota merda, n\u00e9 pai? Adulto pode falar pota merda, mas crian\u00e7a n\u00e3o pode falar pota merda, n\u00e9?&#8221;. Ela nunca falou palavr\u00e3o fora desse contexto inusitado l\u00e1 pelos 4 anos de idade. N\u00e3o sei como ser\u00e1 com a pequena pois estamos nos segurando menos com ela. Enfim, como educador e na lide com crian\u00e7as eu acho que n\u00e3o custa evitar o palavr\u00e3o.<\/p>\n<p>Bom, mas tamb\u00e9m sou professor. A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o sou professor de crian\u00e7as. Sou professor de adultos. De adultos se espera discernimento. O problema \u00e9 que s\u00e3o adultos rec\u00e9m sa\u00eddos da adolesc\u00eancia, muitos ainda no auge dos horm\u00f4nios. Ainda d\u00e3o risadinha quando se fala de sexo na sala de aula. Em sala de aula eu evito ao m\u00e1ximo usar palavr\u00e3o. N\u00e3o me sinto \u00e0 vontade para isso. Eventualmente \u00e9 poss\u00edvel sair um ou outro, mas n\u00e3o \u00e9 regra. Em sala de aula, portanto, acho que pode ser evitado, mas como estamos falando de um pessoal adulto (em teoria), n\u00e3o \u00e9 de todo mal.<\/p>\n<p>No laborat\u00f3rio, por outro lado, a tend\u00eancia \u00e9 ser mais natural, e praguejar quando \u00e9 necess\u00e1rio. Quando a rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 certo. Quando esquecem um tubo com reagentes no meio de uma papelada por meses (a\u00ed \u00e9 poss\u00edvel praguejar pra car&#8230;.amba).<\/p>\n<p>Praguejar \u00e9 um <a href=\"http:\/\/hrcak.srce.hr\/108514\" target=\"_blank\">instrumento social<\/a>. Pode ser usado para coes\u00e3o social ou at\u00e9 mesmo para causar dor emocional em outras pessoas. O cientista Richard Stephens e sua equipe demonstrou experimentalmente que falar palavr\u00e3o pode <a href=\"http:\/\/journals.lww.com\/neuroreport\/Abstract\/2009\/08050\/Swearing_as_a_response_to_pain.4.aspx\" target=\"_blank\">aliviar a dor<\/a>, embora se uma pessoa fale palavr\u00f5es muito constantemente este efeito <a href=\"http:\/\/www.jpain.org\/article\/S1526-5900(11)00762-0\/abstract?cc=y\" target=\"_blank\">tende a diminuir<\/a>. Por outro lado, Genevieve Swee e Annet Schirmer afirmem que <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.jpain.2015.01.002\" target=\"_blank\">gritar &#8220;Ai&#8221; tamb\u00e9m alivia a dor<\/a>, o que pode significar que n\u00e3o \u00e9 o palavr\u00e3o, mas a vocaliza\u00e7\u00e3o que ajuda a liberar o stress e aliviar a dor.<\/p>\n<p>E quanto aos podcasts, o alvo da pergunta? No <a href=\"http:\/\/www.rockcomciencia.com.br\" target=\"_blank\">Rock com Ci\u00eancia<\/a> sempre evitamos palavr\u00f5es, baixo cal\u00e3o ou coisas assim. \u00a0\u00c9 claro que o calor do momento \u00e0s vezes pede algo assim ou simplesmente sai. Mas n\u00e3o \u00e9 t\u00edpico do programa, tampouco de algum de seus participantes. Concordo com o que alguns responderam, que h\u00e1 nicho para tudo. O nicho do Rock com Ci\u00eancia provavelmente permitiria palavr\u00f5es (tem jeito de ter mais palavr\u00f5es do que nas letras de rock?), mas embora tentemos ser descontra\u00eddos no programa, acho que n\u00e3o encaixa com a tem\u00e1tica. Sim, acho que a ci\u00eancia pode ser divertida, mas acho que a divers\u00e3o pode prescindir dos palavr\u00f5es. Isso n\u00e3o significa que eu ache que podcasts que usam estes recursos intencionalmente ou mesmo pela\u00a0genuinidade de seus integrantes (s\u00e3o assim na vida real) n\u00e3o tenha seu valor. Acredito que muitas pessoas n\u00e3o liguem para isso e v\u00e3o ouvir e aproveitar a informa\u00e7\u00e3o que existe no meio dos palavr\u00f5es. Tamb\u00e9m acredito que muitas pessoas n\u00e3o v\u00e3o gostar e v\u00e3o ouvir menos.<\/p>\n<p>Enfim, acho que sim, que h\u00e1 nichos para tudo. Eu n\u00e3o conseguiria falar tanto palavr\u00e3o em um podcast (ou na sala de aula). Quanta gente isso incomoda? S\u00f3 pesquisando para saber&#8230; Boa pergunta&#8230;<\/p>\n<p>PS: Acho que faltou um detalhe a comentar. Podcasts s\u00e3o formadores de opini\u00e3o, e h\u00e1 que se considerar esta fun\u00e7\u00e3o quando se pensa na linguagem. H\u00e1 uma responsabilidade nisso, quer o podcaster queira ou n\u00e3o. Ele pode simplesmente fazer o podcast por divers\u00e3o, sem se preocupar com mais nada, n\u00e3o quer ser controlado. Concordo, sem divers\u00e3o n\u00e3o se faz podcast, n\u00e3o se faz um trabalho n\u00e3o remunerado (na maior parte das vezes) e n\u00e3o reconhecido. Mas o fato da responsabilidade de formador de opini\u00e3o fica.<\/p>\n<p>Acho que a linguagem pode se adequar sim ao p\u00fablico alvo. At\u00e9 deve se adequar, na maioria das circunst\u00e2ncias. Aproxima o interlocutor do ouvinte e torna mais f\u00e1cil a compreens\u00e3o. O fato \u00e9 que palavr\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o recursos de linguagem. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio falar um palavr\u00e3o por frase para que pessoas de determinadas faixas et\u00e1rias ou sociais lhe entendam. Acho que pode at\u00e9 ser considerado mais natural e, em alguns casos, isso o aproximar da realidade de determinados grupos, mas mesmo assim, penso que n\u00e3o s\u00e3o recursos necess\u00e1rios para qualquer meio. Aceit\u00e1veis, talvez.<\/p>\n<p>Por outro lado, pensando na fun\u00e7\u00e3o formador de opini\u00e3o (que qualquer podcaster vai ser, n\u00e3o importa o tema do podcast ou o tamanho do seu p\u00fablico), penso que isso fica completamente desnecess\u00e1rio. E salvo raras exce\u00e7\u00f5es (s\u00edndrome de Tourette, por exemplo), palavr\u00f5es s\u00e3o control\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acompanhei de longe uma discuss\u00e3o hoje no Twitter sobre o uso de palavr\u00f5es nos Podcasts de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, at\u00e9 o momento em que a Sibele Fausto pediu a minha opini\u00e3o. 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