{"id":1602,"date":"2014-08-29T10:02:54","date_gmt":"2014-08-29T13:02:54","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=1602"},"modified":"2014-09-16T15:41:15","modified_gmt":"2014-09-16T18:41:15","slug":"evolucao-e-conservacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=1602","title":{"rendered":"Evolu\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds megadiverso, com esp\u00e9cies novas sendo descobertas a cada dia. Esta grande biodiversidade de fauna e flora o colocou no foco de a\u00e7\u00f5es internacionais em defesa da biodiversidade, popularizando a frase \u201cconhecer para preservar (ou conservar)\u201d, no sentido de que precisamos conhecer nossa biodiversidade para preserv\u00e1-la (ou conserv\u00e1-la). O que seria isso? Conhecer a biodiversidade seria contar e catalogar todas as esp\u00e9cies viventes atualmente, ou seria algo mais amplo? Respondendo \u00e0 esta quest\u00e3o podemos melhor trabalhar em planos de manejo que efetivamente levem \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da nossa biodiversidade.<\/p>\n<p>Com os estudos de Darwin a biologia passou a ter uma hip\u00f3tese a ser testada, e a simples cataloga\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies deixou de ser o foco principal da hist\u00f3ria natural. Por isso, quando falamos em conhecer a biodiversidade estamos falando sobre a cataloga\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies e muito mais. Queremos saber como cada esp\u00e9cie se tornou o que \u00e9, e tudo que estiver relacionado com sua hist\u00f3ria evolutiva. Simplesmente conhecer o n\u00famero de esp\u00e9cies de um determinado ambiente n\u00e3o \u00e9 suficiente para responder \u00e0s quest\u00f5es que o crescimento e o desenvolvimento populacional nos imp\u00f5em. Neste sentido, os estudos evolutivos podem contribuir com propostas de manejo e conserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, mas como?<\/p>\n<p>O primeiro problema \u00e9 determinar o que \u00e9 uma esp\u00e9cie. Existem esp\u00e9cies que se diferenciam com uma simples passada de olho \u2013 como quando comparamos um le\u00e3o com uma ovelha, por exemplo. No entanto, nem sempre as coisas s\u00e3o assim t\u00e3o simples. H\u00e1 esp\u00e9cies que podem ser diferenciadas pelo seu comportamento; h\u00e1 casos em que apenas estudos gen\u00e9ticos permitem diferenciar esp\u00e9cies pois morfologicamente s\u00e3o bastante semelhantes ou at\u00e9 indistingu\u00edveis. Esta identifica\u00e7\u00e3o correta, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 de extrema import\u00e2ncia. Imagine que voc\u00ea precisa trabalhar em um projeto de reintrodu\u00e7\u00e3o de fauna em uma \u00e1rea degradada onde a popula\u00e7\u00e3o de uma determinada esp\u00e9cie est\u00e1 bastante reduzida. A simples an\u00e1lise de morfologia poderia faz\u00ea-lo introduzir uma esp\u00e9cie id\u00eantica morfologicamente, mas que n\u00e3o teve a mesma hist\u00f3ria evolutiva e possuiu um isolamento que impede o reestabelecimento saud\u00e1vel da esp\u00e9cie desejada.<\/p>\n<p>As grandes bacias hidrogr\u00e1ficas, como as do rio Paran\u00e1 e rio S\u00e3o Francisco, por exemplo, est\u00e3o isoladas h\u00e1 milh\u00f5es de anos, mesmo estando pr\u00f3ximas em v\u00e1rias partes do Brasil. Apesar de haver quest\u00f5es mais complexas, em geral os peixes destas bacias hidrogr\u00e1ficas est\u00e3o separadas por este mesmo per\u00edodo, acumulando varia\u00e7\u00f5es independentes em cada ambiente. Mesmo assim, as caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas semelhantes em esp\u00e9cies de ambas as bacias podem fazer parecer se tratar da mesma esp\u00e9cie. Os peixes do g\u00eanero <em>Astyanax<\/em> (lambaris ou piabas) tem sido estudados h\u00e1 muitos anos justamente pelo conflito entre as caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas e gen\u00e9ticas que possuem. <em>Astyanax fasciatus<\/em> \u00e9 conhecido como lambari do rabo vermelho por apresentar a nadadeira caudal bastante avermelhada. Esta esp\u00e9cie \u00e9 encontrada tanto nos rios da bacia do rio Paran\u00e1 quanto nos da bacia do rio S\u00e3o Francisco. Estudos gen\u00e9ticos tem apontado que a hist\u00f3ria evolutiva de diferentes popula\u00e7\u00f5es dos rios Paran\u00e1 e S\u00e3o Francisco apesar de caminharem em um mesmo caminho morfol\u00f3gico, trilharam-no de modo independente, paralelo. Desta forma, acumularam varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que as tornaram esp\u00e9cies distintas, embora a taxonomia ainda n\u00e3o tenha validado esta posi\u00e7\u00e3o. O conhecimento dos aspectos evolutivos neste exemplo, permitem uma melhor conduta nos planos de manejo, pois impede que se utilize peixes de uma bacia hidrogr\u00e1fica para recolonizar outra, mesmo quando os pr\u00f3prios taxonomistas consideram algo como sendo da mesma esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes o problema \u00e9 ainda mais sutil, e precisamos avaliar a variabilidade gen\u00e9tica que existe dentro de cada popula\u00e7\u00e3o analisada. Este tipo de conhecimento permite avaliar a sa\u00fade gen\u00e9tica de uma esp\u00e9cie. Suponha que na \u00e1rea que voc\u00ea est\u00e1 estudando o tamanho populacional de uma determinada esp\u00e9cie tenha declinado recentemente, devido a muitos casos de baixa natalidade. Estudos gen\u00e9ticos podem demonstrar que a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 sofrendo o que \u00e9 chamado de depress\u00e3o por endogamia, um problema que acontece em pequenas popula\u00e7\u00f5es que passam a ter cruzamentos endog\u00e2micos (entre parentes) mais frequentes. Isto faz com que genes delet\u00e9rios (que causam problemas) tenham mais possibilidade de ficar em homozigose. Os estudos evolutivos nos dizem que a variabilidade gen\u00e9tica pode ser aumentada pela migra\u00e7\u00e3o e podemos usar este conhecimento para planejar o manejo adequado, introduzindo novos exemplares levando em considera\u00e7\u00e3o o que vimos anteriormente, sobre a quest\u00e3o de se tratar da mesma esp\u00e9cie. Entretanto, h\u00e1 casos em que o ac\u00famulo de varia\u00e7\u00f5es decorrentes de um isolamento reprodutivo n\u00e3o \u00e9 suficiente para considerarmos esp\u00e9cies diferentes, mas pode ser grande demais para o sucesso de repovoamentos.<\/p>\n<p>Uma outra ferramenta das an\u00e1lises evolutivas que pode ser \u00fatil em conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade \u00e9 a filogeografia. A filogeografia recupera os caminhos evolutivos de diferentes popula\u00e7\u00f5es de uma mesma esp\u00e9cie, e permite identificar casos de fragmenta\u00e7\u00e3o de habitats e proximidade gen\u00e9tica entre popula\u00e7\u00f5es, incrementando as informa\u00e7\u00f5es para os planos de manejo e conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, quando falamos que \u00e9 necess\u00e1rio conhecer para conservar, queremos falar muito mais do que simplesmente catalogar as esp\u00e9cies existentes. O conhecimento da hist\u00f3ria evolutiva e das caracter\u00edsticas mais detalhadas de cada popula\u00e7\u00e3o \u00e9 que v\u00e3o permitir realizar planos de manejo e conserva\u00e7\u00e3o com maior probabilidade de sucesso.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Escrevi este texto\u00a0para o livro de Biologia do 2o. ano do Ensino M\u00e9dio, de T\u00e2mile Stella Anacleto e Felipe Beijamini, pela editora EDEBE.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds megadiverso, com esp\u00e9cies novas sendo descobertas a cada dia. 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