{"id":158,"date":"2012-03-19T10:58:42","date_gmt":"2012-03-19T13:58:42","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=158"},"modified":"2012-03-19T10:58:42","modified_gmt":"2012-03-19T13:58:42","slug":"prions-podem-estar-envolvidos-em-processos-evolutivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=158","title":{"rendered":"Pr\u00edons podem estar envolvidos em processos evolutivos"},"content":{"rendered":"<p>Dando continuidade a este blog, que \u00e0s vezes parece que vai ser semestral, vou comentar sobre algo que encontrei meio sem querer. Em fevereiro saiu um <a href=\"http:\/\/www.newscientist.com\/article\/mg21328524.800-prions-point-to-a-new-style-of-evolution.html\" target=\"_blank\">artigo na revista The Scientist<\/a> comentando sobre o papel de pr\u00edons no processo da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. At\u00e9 a\u00ed tudo bem, mas o coment\u00e1rio dos criacionistas&#8230;<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O <a href=\"http:\/\/www.nature.com\/nature\/journal\/v482\/n7385\/full\/nature10875.html\" target=\"_blank\">estudo publicado na revista Nature<\/a> pela equipe da pesquisadora Susan Lindquist levanta a quest\u00e3o de como pr\u00edons podem atuar no processo evolutivo em leveduras.<\/p>\n<p>Vamos por partes. Pr\u00edons s\u00e3o prote\u00ednas que possuem a mesma sequencia de amino\u00e1cidos (ou seja, codificada pela mesma sequ\u00eancia de DNA de uma prote\u00edna normal) mas que durante seu enovelamento sofreu altera\u00e7\u00f5es na sua estrutura tridimensional e passou a n\u00e3o desempenhar sua fun\u00e7\u00e3o normal. Normalmente, estas prote\u00ednas que sofrem problemas no enovelamento s\u00e3o direcionadas para a degrada\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o acontece com pr\u00edons. Entre os problemas que pr\u00edons podem causar est\u00e1 o bastante divulgado &#8220;mal da vaca louca&#8221;.<\/p>\n<p>Leveduras s\u00e3o fungos unicelulares cujos representantes mais estudados e conhecidos s\u00e3o aqueles do g\u00eanero <em>Saccharomyces<\/em>, muito conhecidos por serem respons\u00e1veis pela cerveja, p\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Os pesquisadores observaram a s\u00edntese de uma prote\u00edna, a Sup35. Normalmente \u00e9 uma prote\u00edna envolvida na s\u00edntese de prote\u00ednas pelos ribossomos, auxiliando na exatid\u00e3o do processo de leitura que garante que a prote\u00edna sintetizada \u00e9 decorrente de uma determinada informa\u00e7\u00e3o que chegou aos ribossomos pelo RNA mensageiro. Quando esta prote\u00edna torna-se um pr\u00edon, ela n\u00e3o cumpre esta fun\u00e7\u00e3o, e prote\u00ednas s\u00e3o ent\u00e3o produzidas sem este controle. O resultado \u00e9 a s\u00edntese de diferentes tipos de prote\u00edna com ou sem fun\u00e7\u00e3o definida e muitas vezes diferente do que o DNA est\u00e1 sugerindo. Mais do que isso, estas diferentes prote\u00ednas s\u00e3o produzidas sem qualquer altera\u00e7\u00e3o no DNA.<\/p>\n<p>Em 2004, a equipe de Susan Lindquist observou este comportamento em laborat\u00f3rio e os cr\u00edticos disseram que se tratava de doen\u00e7a pr\u00edonica de laborat\u00f3rio. Agora, ela e seus colaboradores observaram o fato em 255 de 700 linhagens selvagens de <em>Saccharomyces <\/em>que foram analisadas.<\/p>\n<p>O que os pesquisadores fizeram foi colocar as linhagens para crescer em um ambiente in\u00f3spito. Observaram apenas aqueles que conseguiram sucesso e adicionaram um produto qu\u00edmico que destr\u00f3i pr\u00edons. O resultado foi que muitas col\u00f4nias (grupos de c\u00e9lulas origin\u00e1rias de um ou poucos indiv\u00edduos iniciais) que inicialmente estavam se dando bem, definharam. Ou seja, eram os pr\u00edons que estavam garantindo sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Pode-se deduzir que os pr\u00edons promoveram uma varia\u00e7\u00e3o que foi selecionada por permitir a sobreviv\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o no ambiente in\u00f3spito, o que pode expandir as oportunidades adaptativas da esp\u00e9cie. At\u00e9 a\u00ed, tudo bem. Algu\u00e9m v\u00ea algum problema da teoria evolutiva com este achado? O autor da not\u00edcia no peri\u00f3dico The Scientist chamou de &#8220;novo estilo de evolu\u00e7\u00e3o&#8221; e ao que parece, isso causou alvoro\u00e7o entre os criacionistas (eles nunca precisam de muito, mesmo). Um deles chega a dizer que cada vez mais nos distanciamos do trabalho de Darwin&#8230;<\/p>\n<p>Mas desde quando isso \u00e9 um &#8220;novo estilo de evolu\u00e7\u00e3o&#8221;, em primeiro lugar? Ao que parece, n\u00e3o passa de um mecanismo de sobreviv\u00eancia encontrado em algumas leveduras. Esta varia\u00e7\u00e3o causada pelos pr\u00edons se mostrou ben\u00e9fica apenas nos ambiente controlados, in\u00f3spitos para as demais linhagens. Ser\u00e1 que isso teve algum papel durante a evolu\u00e7\u00e3o dos microorganismos? \u00c9 poss\u00edvel que sim, mas, de alguma forma, o que vemos atualmente s\u00e3o adapta\u00e7\u00f5es que ficaram gravadas no DNA. Se as adapta\u00e7\u00f5es acontecem por motivo n\u00e3o gravado no DNA, sua transmiss\u00e3o depende exclusivamente da transfer\u00eancia citoplasm\u00e1tica, o que \u00e9 relativamente f\u00e1cil em organismos unicelulares, mas mais complicado em organismos que possuem linhagens celulares gam\u00e9ticas distintas das som\u00e1ticas. Podemos at\u00e9 mesmo conjecturar que durante um processo de adapta\u00e7\u00e3o a um ambiente in\u00f3spito inicialmente, este mecanismo permita que novidades evolutivas gravadas no DNA aconte\u00e7am e sejam mantidas.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ao trabalho de Susan Lindquist de que isto n\u00e3o passa de uma doen\u00e7a de laborat\u00f3rio, entretanto, persiste, pois ela n\u00e3o observou este fen\u00f4meno na natureza. Ainda.<\/p>\n<p>Mas onde est\u00e1 o problema com a evolu\u00e7\u00e3o? Mesmo assumindo que isto seja comum at\u00e9 mesmo na natureza, mesmo em organismos pluricelulares, em que isto torna a evolu\u00e7\u00e3o errada e o criacionismo correto? Criacionistas insistem em dizer que n\u00e3o temos certezas, mas isto \u00e9 ci\u00eancia, e isto \u00e9 a coisa mais linda da ci\u00eancia: n\u00e3o, n\u00e3o temos certezas absolutas. Certezas absolutas s\u00e3o particularidade dos dogmas religiosos. O que temos s\u00e3o evid\u00eancias e mais evid\u00eancias de que Darwin estava coberto de raz\u00e3o. Neste caso em espec\u00edfico, onde \u00e9 que Darwin errou? Darwin fala de DNA em que p\u00e1gina de seus livros? O que temos feito cada vez com mais sucesso \u00e9 desvendar o mecanismo pelo qual (ou os mecanismos) a evolu\u00e7\u00e3o acontece. Se os pr\u00edons fizeram parte disso, \u00f3timo, vamos ent\u00e3o compreender como!<\/p>\n<p>Uma coisa bastante interessante que este estudo nos mostra vai justamente contra o argumento de Michael Behe sobre a complexidade irredut\u00edvel, pois ao contr\u00e1rio do que aconteceria com um Arquiteto Inteligente (que os adeptos insistem que n\u00e3o \u00e9 um deus), este pr\u00edon gera uma infinidade de prote\u00ednas diferentes e uma ou outra vai ser respons\u00e1vel pela sobreviv\u00eancia da c\u00e9lula, n\u00e3o todas. Se houvesse um Arquiteto Inteligente, o pr\u00edon faria s\u00f3 o que \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio. Mas o que vemos, por outro lado, \u00e9 uma quantidade de novas prote\u00ednas que s\u00e3o selecionadas. Lembrem-se: os pesquisadores colocaram as linhagens para crescer em um meio seletivo e observaram os sobreviventes.<\/p>\n<p>Por fim, a velha hist\u00f3ria: &#8220;Cientistas tem cada vez mais perguntas&#8221;. Sim! E isso \u00e9 maravilhoso! Se voc\u00ea \u00e9 um cientista e suas pesquisas n\u00e3o geram mais perguntas, lamento muito. Algo deve estar errado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dando continuidade a este blog, que \u00e0s vezes parece que vai ser semestral, vou comentar sobre algo que encontrei meio sem querer. Em fevereiro saiu um artigo na revista The Scientist comentando sobre o papel de pr\u00edons no processo da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. 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