{"id":101,"date":"2011-05-18T12:34:28","date_gmt":"2011-05-18T15:34:28","guid":{"rendered":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=101"},"modified":"2011-05-18T18:43:06","modified_gmt":"2011-05-18T21:43:06","slug":"sobre-a-fixacao-de-doutores-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/darwin.crp.ufv.br\/dnacetico\/?p=101","title":{"rendered":"Sobre a fixa\u00e7\u00e3o de doutores no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 prov\u00e1vel que isso aconte\u00e7a em outras \u00e1reas, embora em algumas seja um pouco mais dif\u00edcil. Entretanto, quando se est\u00e1 trabalhando com popula\u00e7\u00f5es naturais, \u00e9 uma realidade que pode ser mais comum do que se pensa.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Qual \u00e9 o objetivo da forma\u00e7\u00e3o de doutores? \u00c9 prov\u00e1vel que haja mais respostas, mas imagino eu que seja para formar recursos humanos capacitados para multiplicar o potencial de pesquisa de um pa\u00eds em determinada \u00e1rea. Logo, o que esperamos destes doutores \u00e9 que eles assumam novos postos, novas frentes, objetivando seguir a linha de pesquisa dominada durante o processo de doutoramento, preferencialmente em regi\u00f5es distintas do local onde fez seu doutorado. A perman\u00eancia no local do doutoramento \u00e9 interessante e importante especialmente para a renova\u00e7\u00e3o do quadro pessoal e tamb\u00e9m para impedir que a aposentadoria dos pesquisadores seniores seja seguida da morte de uma linha de pesquisa na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema (ou n\u00e3o) \u00e9 que \u00e9 imposs\u00edvel que todos os rec\u00e9m-doutores permane\u00e7am no mesmo local em que se formaram. Assim, a maioria dos doutores precisa arrumar emprego em outros lugares, o que \u00e9 interessante para a multiplica\u00e7\u00e3o do potencial de pesquisa de um pa\u00eds. \u00c0s vezes alguns conseguem se fixar em institutos de pesquisa e universidades j\u00e1 consolidadas, onde v\u00e3o somar a grupos de pesquisas j\u00e1 existentes. Outros acabam se fixando em universidades estaduais com poucos recursos e pouca tradi\u00e7\u00e3o em pesquisa (exceto no Estado de S\u00e3o Paulo), ou em institui\u00e7\u00f5es federais, especialmente com os investimentos dos \u00faltimos anos em cria\u00e7\u00e3o de novos <em>campi<\/em> de universidades federais (a apreens\u00e3o sobre a consolida\u00e7\u00e3o destes projetos tendo em vista os cortes realizados pelo novo governo seria um tema para outra postagem). Assim, acabam por fixar-se nestes locais onde tudo est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o e laborat\u00f3rios de pesquisa precisam ser montados mesmo diante da prioriza\u00e7\u00e3o absoluta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1rea did\u00e1tica. Aqui j\u00e1 temos uma quest\u00e3o que merece uma discuss\u00e3o mais aprofundada. Afinal, uma universidade n\u00e3o \u00e9 um local de gera\u00e7\u00e3o de conhecimento? Ent\u00e3o por que devemos priorizar a todo custo a \u00e1rea did\u00e1tica? N\u00e3o estou dizendo que a montagem de laborat\u00f3rios de aulas pr\u00e1ticas n\u00e3o seja importante, mas por que n\u00e3o prever pesquisas associadas a estes laborat\u00f3rios? Afinal, n\u00e3o se est\u00e1 contratando doutores?<\/p>\n<p>Vez por outra vemos informa\u00e7\u00f5es sobre os esfor\u00e7os para fixa\u00e7\u00e3o de doutores no pa\u00eds, pois quem faz doutorado ou p\u00f3s-doutorado no exterior acaba preferindo ficar por l\u00e1 se tiver alguma proposta. Mas n\u00e3o basta dar o emprego. Se o pesquisador \u00e9 bom o suficiente para receber proposta para ficar no exterior, n\u00e3o \u00e9 o emprego que ele quer, \u00e9 condi\u00e7\u00f5es para realizar pesquisa sendo bem remunerado para isso.<\/p>\n<p>No ano de 2008, o CNPq teve um edital para bolsas de produtividade em pesquisa exclusiva para estes novos doutores, fixados em novos campi de universidades federais. Uma proposta interessante, mas que n\u00e3o se repetiu. H\u00e1 tamb\u00e9m os editais da FINEP para infraestrutura, que v\u00eam dando um apoio importante para constru\u00e7\u00f5es de laborat\u00f3rios e compra de equipamentos, e alguns editais de Funda\u00e7\u00f5es de Amparo \u00e0 Pesquisa Estaduais para rec\u00e9m-doutores, mas com baixo montante de recursos. De modo geral, os rec\u00e9m-doutores precisam concorrer em editais mais amplos, onde os pesquisadores seniores tamb\u00e9m concorrem. A\u00ed v\u00e3o anos de curr\u00edculo montado com o trabalho de orienta\u00e7\u00e3o de mestrados e doutorados contra curr\u00edculos formados h\u00e1 poucos anos.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 tive resposta de edital do CNPq cuja proposta foi indeferida, onde o relator afirmou que o projeto \u00e9 interessante mas n\u00e3o apresenta grandes novidades. Nem poderia! Para fazer uma proposta apresentando grandes novidades na \u00e1rea em um laborat\u00f3rio em implanta\u00e7\u00e3o, eu precisaria de recursos muito maiores do que os dispon\u00edveis. Id\u00e9ias n\u00e3o faltam, mas se eu aumentar o or\u00e7amento, a resposta certamente ser\u00e1 a de que n\u00e3o tenho experi\u00eancia suficiente para receber tantos recursos (j\u00e1 cansei de ouvir isso de pares, afirmando que os rec\u00e9m-doutores precisam mandar propostas simples para conseguir financiamento). Ent\u00e3o, propostas simples, n\u00e3o s\u00e3o aceitas por serem simples. Propostas mais inovadoras, n\u00e3o s\u00e3o aceitas por falta de experi\u00eancia.\u00a0 Claro, sempre \u00e9 poss\u00edvel ter a sorte de ter um relator amigo seu para julgar a proposta. Quem conseguiu crescer sem puxar-saco certamente ter\u00e1 mais dificuldades.<\/p>\n<p>Apesar de toda a dificuldade, os doutores est\u00e3o sendo fixados. Bem ou mal, est\u00e3o conseguindo seus primeiros recursos de \u00f3rg\u00e3os de fomento e est\u00e3o come\u00e7ando suas atividades de pesquisa. Conforme afirmado acima, estes pesquisadores tentar\u00e3o seguir em sua linha de pesquisa. Quando se trabalha com popula\u00e7\u00f5es naturais, todo este cen\u00e1rio significa uma coisa: come\u00e7ar pesquisas nas proximidades de onde est\u00e1 fixado, pois os recursos para sa\u00eddas de campo ou coleta geralmente precisam ser sacrificadas para comprar um ou outro equipamento.<\/p>\n<p>E o que fazer quando os grandes pesquisadores seniores, que obviamente seguem com seus alunos de mestrado, doutorado e p\u00f3s-doutorado, trabalhando com aquela linha de pesquisa, realizam suas expedi\u00e7\u00f5es nas imedia\u00e7\u00f5es de onde este rec\u00e9m-doutor est\u00e1 fixado?<\/p>\n<p>Oras, o pesquisador s\u00eanior talvez j\u00e1 fizesse pesquisas por aquelas \u00e1reas h\u00e1 muito tempo. Ningu\u00e9m em s\u00e3 consci\u00eancia diria para este pesquisador parar de trabalhar na regi\u00e3o, afinal, n\u00e3o existem (ou n\u00e3o deveriam existir) donos de uma regi\u00e3o ou organismo (aqui vai mais uma reflex\u00e3o interessante, pois j\u00e1 cansei de ouvir reclama\u00e7\u00f5es de seniores sobre fulano ou beltrano trabalhando com esp\u00e9cies que ele trabalha h\u00e1 anos). Apesar disso, haveria necessidade de seguir com expedi\u00e7\u00f5es de sua equipe, \u00e1s vezes centenas de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, enquanto o rec\u00e9m-doutor em estabelecimento tenta iniciar suas atividades na regi\u00e3o? E mais, haveria necessidade de fazer isso sem pelo menos entrar em contato com o rec\u00e9m-doutor? Se os objetivos de estudo, metodologias para obten\u00e7\u00e3o dos dados, ou ainda os organismos estudadso s\u00e3o diferentes, talvez se justifique. Mas quando a linha de pesquisa \u00e9 absolutamente a mesma, n\u00e3o faz sentido. Cada vez mais os \u00f3rg\u00e3os de fomento est\u00e3o incentivando a cria\u00e7\u00e3o de redes de pesquisa. N\u00e3o seria uma excelente oportunidade de somar esfor\u00e7os para conseguir resultados mais pr\u00e1ticos e otimizar os recursos p\u00fablicos?<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o basta a concorr\u00eancia desleal para conseguir recursos dos \u00f3rg\u00e3os de fomento, mas os rec\u00e9m-doutores tamb\u00e9m precisam inventar outra coisa para fazer? Mas a\u00ed tem outro problema: se eu mandar um projeto com um tema totalmente diferente de minhas publica\u00e7\u00f5es e linha de pesquisa at\u00e9 ent\u00e3o desenvolvida, quem \u00e9 que vai financiar? Por exemplo, j\u00e1 tive uma bolsa de p\u00f3s-doutorado recusada sob a alega\u00e7\u00e3o de que eu nunca havia trabalhado com a metodologia e n\u00e3o conseguiria aprender e desenvolver durante o projeto. Ok, sou limitado, mas tenho trabalhado com isto desde ent\u00e3o, sem maiores problemas.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho todas as respostas para estas quest\u00f5es, mas acho que esta discuss\u00e3o \u00e9 imprescind\u00edvel se o Brasil quiser fortalecer suas institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e, principalmente, fixar seus doutores. Entretanto, acredito que bom senso n\u00e3o faria mal nenhum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 prov\u00e1vel que isso aconte\u00e7a em outras \u00e1reas, embora em algumas seja um pouco mais dif\u00edcil. 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