A Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado está analisando uma proposta do Senador Cristóvão Buarque (PDT-DF) que obriga bolsistas de Iniciação Científica a cumprirem 4 (quatro) horas semanais de atividades em escolas (PLS 224/2012).
Inicialmente, eu não tenho opinião formada sobre a questão. Vou expor alguns prós e contras que observo de início, mas existe grande possibilidade de eu mudar de opinião no futuro, frente à alguma discussão.
Eu compreendo a motivação do Senador e concordo que há necessidade de se levar a ciência mais próximo das pessoas. Entretanto, ainda estou ambíguo quanto à esta resolução.
No meu texto anterior escrevi sobre o que é e como se faz iniciação científica. Quando um aluno de graduação consegue sua bolsa de Iniciação Científica ele precisa cumprir 20 horas semanais nas atividades de pesquisa. Alunos que fazem cursos em período integral acabam se organizando em pequenas janelas nos seus horários e também em período noturno. O bolsista de Iniciação Científica precisa conciliar seus estudos na graduação, as atividades de pesquisa (envolvendo o treinamento em uma ou algumas técnicas laboratoriais) e os estudos das bases para desenvolver o trabalho de pesquisa, justamente para serem mais do que meros técnicos de laboratório. O cientista precisa ter formação adequada para resolver problemas, levantar hipóteses e propor experimentos, e não apenas para manusear equipamentos.
Quais seriam os impactos no aluno, decorrentes desta nova atividade proposta pelo Senador Cristóvão Buarque?
Bom, além do que mencionei acima, o aluno teria que dedicar-se pelo menos quatro horas na escola. Mas não é só isso. Ele precisa se preparar para desenvolver este trabalho. Não basta ir até a escola. Quanto tempo precisará para fazer esta preparação? Lembrem que estamos falando de alunos de graduação, que não tem experiência em preparo de aulas ou de atividades. E mais, a maior parte deles não é aluno de licenciatura, ou seja, nem está sendo preparado para interagir com crianças e jovens. Ou seja, o bolsista seria obrigado a cumprir uma carga horária módica, sim, mas que requer uma carga horária bem maior para sua preparação. Isso pode impactar seus estudos e sua pesquisa.
Por outro lado, quem irá organizar estas atividades? O orientador da Iniciação Científica? Talvez seja interessante tirar os cientistas da zona de conforto e confrontá-los com os desafios da divulgação científica. Muitos são extremamente resistentes. Se não houver um engajamento firme dos cientistas orientadores, será que esta proposta terá sucesso? Uma atividade que seja desenvolvida com um mínimo de profissionalismo precisa ser bem arquitetada, bem elaborada. E isso não é feito de uma hora para outra. Da mesma forma que muitos dos bolsistas não faz curso de licenciatura, muitos dos orientadores não são licenciados, nunca trabalharam com crianças e jovens, nunca pensaram na educação básica. Meu medo é que as coisas simplesmente sejam jogadas para os jovens e crianças, sem muito critério. Até que ponto atividades assim seriam úteis. Melhor que nada? Não sei.
Pelas redes comentaram que esta seria uma forma de os bolsistas darem um retorno à sociedade. Bom, há problemas neste argumento. Os bolsistas estão recebendo um incentivo para produzir conhecimento. Por menor que seja a participação de um aluno de Iniciação Científica em um projeto de pesquisa, mesmo que seja de ciência pura, ele já está dando retorno à sociedade. O simples fato de ele ter que se dedicar mais para ser um profissional melhor, já é um argumento mais do que suficiente para que o incentivo da bolsa seja justificado. “Ah, mas tem bolsista que não faz nada”… Infelizmente isso acontece em todas as áreas e certamente vai acontecer com estas quatro horas na escola. Faz parte das pequenas corrupções do dia-a-dia.
Outra preocupação que observei foi em relação aos bolsistas do Ciência sem Fronteiras. Eles deveriam cumprir esta obrigação após seu retorno ao Brasil, por tempo igual ao que usufruíram da bolsa. Ok, mas quem é que vai orientá-los nestas atividades? E se o curso de graduação deles acabar neste meio tempo, o que vão fazer?
A proposta do Senador não explica como estas medidas deveriam ser implementadas, mas sugere que “órgãos federais competentes em conjunto com as secretarias estaduais e municipais de educação” deverão definir a forma de participação dos bolsistas. Ou seja, mesmo sendo aprovada este ano, a Lei levará mais alguns anos para ser regulamentada. E dificilmente será implementada. É uma proposta bonita, mas que está sendo desenvolvida sem diálogo com a realidade. O Senador Cristóvão Buarque é professor universitário, mas acredito que está há tanto tempo fora do meio que nem lembra mais como é. Aliás, sequer deve conhecer a realidade dos novos professores de universidades federais, com muito mais carga horária em sala de aula de graduação, muito mais alunos e avaliações para corrigir, e em muitos casos sem o apoio dos doutorandos e pós-doutorandos para ministrar suas aulas enquanto eles pensam nas suas pesquisas.
Se me permitem uma sugestão, acredito que seria muito mais eficiente um programa específico para divulgação científica. Bolsas específicas para isso. Os bolsistas contemplados seriam aqueles realmente interessados em aprender a fazer divulgação científica. Os orientadores seriam aqueles que realmente tem interesse nisso, que pensam nisso, que apresentam propostas específicas para isso. Há algum tempo em nosso laboratório temos bolsistas PIBEX (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Extensão) direcionados para divulgação científica. Estes bolsistas em geral fazem o contrário da proposta do Senador. Eles atuam principalmente nas atividades de divulgação científica, mas como nosso sistema não premia isso, eles atuam também na pesquisa, para fazer currículo competitivo para seguir a carreira acadêmica.
Enfim, outras ações podem vir de cima para baixo e ajudar a implementar estas ações. Órgãos de fomento podem exigir propostas de divulgação científica incluídas nos projetos de pesquisa aprovados pelos cientistas. Mais, as atividades de divulgação científica poderiam ser mais bem avaliadas nos currículos dos cientistas.
A princípio, portanto, sou contrário a esta imposição. Acho que existem formas melhores para cumprir este objetivo de levar ciência nas escolas. Mas estou aberto à discussão.